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Pesca Nordeste - O seu Portal de Pesca Esportiva - O filhote de Guará
     
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O filhote de Guará
Por Roberto Menks   

Dona Antera fazia as últimas recomendações enquanto lavava as mãos em uma cuia grande à luz fraca do candieiro esfumaçante. Parteira de muitos atributos e famosa em toda a região, não se lembrava mais de quantas crianças teriam vindo ao mundo com o seu auxilio. Era madrinha de pelo menos a metade daquele povo mais novo. Leiga mas competente. Entretanto, tinha alguns conceitos práticos que de vez em quando lhe traziam problemas no trabalho de parto, como introduzir pedra de sal bruto na vagina das coitadas para o dilatamento. Esse recurso era esporádico, no entanto e não raro, causava hemorragia e traumas à parturiente e ao rebento.

Chico Chaga, moço novinho e de boa índole, pescador de muitos predicados, mas extremamente ingênuo, estava do lado de fora do casebre rodeado de amigos e curiosos. Pitava inquieto um porronca de fumo picado e não podia evitar a preocupação e a ansiedade, afinal, esse negócio de sair de carreira atrás de parteira era experiência que ainda não lhe tinha sucedido. Já tinha sim, em várias ocasiões, participado das rodas em porta de barracos onde sempre se reuniam quase todos os pescadores do povoado à espera do primeiro choro e o “mijo” de uma nova criança. O pai sempre tinha uma garrafa de “tiquira” para a ocasião. Essas notícias correm como o vento leste. Comunidade pequena, concentrada e basta alguém mandar chamar a parteira que todos ficam sabendo que a hora chegou.

A lua já ia alta e o ajuntamento dos curiosos e amigos ia aumentando na porta do rancho. Mulheres se dispondo para qualquer ajuda e crianças fazendo algazarra na rua arenosa. O sinal para servir a tiquira era o choro do vivente, que para desespero de muitos estava se alongando demais. Zé Carnaúba, arrastador de camarão “dos bão”, impaciente e como uma secura danada, arriscou uma piada:

— Esse mininu tá é de rosca é?
— Vai vê é fio de jegue — completou outro gaiato.

As gargalhadas sucederam-se, porém, de forma comedida. Chico Chaga não reagiu. Era acostumando com essas fuleragens e logo estava mais concentrado ao lado da janela, tentando ouvir alguma coisa que pudesse sinalizar o trabalho de parto.

Só as mulheres tinham permissão para espiar dentro do quarto, de forma que as mais curiosas sempre saiam à rua dando notícia quase sempre com a mesma expressão: “Vixê o bucho de Gracinha tá prá espocá”

No quarto fora improvisada uma cama no chão de terra batida. A rede com mais alguns trapos servia de colchão onde estava deitada Gracinha com as pernas abertas em forma de forquilha e com a cabeça no colo da mãe, Dona Raimundinha. Mordia os lábios inferiores e gemia muito. Dona Antera ajoelhada entre as coxas da moça, fazia massagens na barriga comprimindo-a repetidamente. As contrações iam aumentando cada vez mais.

— Ai meu Deus dói muito, ai ai ai, acho que vô murrê! Eu vô murrê!
— Morre não muié, respira e bota força nessa coisa, quando tu tava na sacanagem com o Chico achô bão num foi? Agora agüente! Faiz força! Faiz força que tá saindo! Si cagá naum liga naum!

Passaram-se alguns minutos, que para Chico Chaga foram uma eternidade. Era angustiante, mas o choro fino e estridente ouvia-se até a rua. A comemoração foi com muita zuada, principalmente pelos homens do lado de fora. A molecada de pés descalços que molestava com pedras e paus dois cães engatados na esquina, com outros tantos ao redor, voltou fazendo a maior algazarra, muitos sem entender o motivo daquela farra.

Esse choro tinha gosto de tiquira.

— Pégo a tiquira Chico? — era Pedro Guaíba com as mãos já trêmulas de tanto esperar pela “mardita”.
— Péga lá enrriba da mesa!

Chico Chaga ainda não tinha relaxado e ficou escorado na porta da frente esperando notícias.

— Vixê nossa Sinhora, que arrumação é essa?

Chico reconheceu a voz de D. Raimundinha, a sogra. Foi tomado por um impulso que quase o fez adentrar ao quarto.

— O qui é qui foi D. Raimundinha?
— Nada não Chico! Se assussegue homi!

A sogra dissimuladamente começou a falar com a filha enquanto D. Antera dava o primeiro banho do recém nascido. Ao sair na pequena ante sala do rancho Chico perguntou:

— É o que D. Antera?
— Mininu homi! Mais um prá mulestá as menina de famía!

Só assim conseguiu se acalmar e voltar ao meio da turma que continuava fazendo farra a pretexto de comemoração.

— Chico, cuma é qui é! Acabou a tiquira! — gritou Nonatinho balançando a garrafa vazia no ar.
— Vá lá na quitanda de seu Mané Cacinba e pega mais duas garrafas.

Não tinha tomado nem um gole ainda por conta da ansiedade e agora ia à forra. E certamente duas garrafas eram coisa só prá começo, porém, não se preocupava muito visto que nessas ocasiões nunca falta alguém prá dividir despesas dessa natureza.

Brejeira, capenga de um pé por conta de uma picada de cobra mal benzida e já melado de tiquira, apareceu com uns foguetes “três tiros” que guardava em casa desde a última visita de uns políticos em campanha. Conseguiu surrupiar alguns e danou a soltá-los na frente da casa.

D. Antera saiu prá fora como uma fera. Soltava fogo pelas ventas e foi logo descarregando:

— Quem é fio de uma égua que tá espocando fuguete aí? Num tão vendo que tem mininu novo drumindo? Ceis enfiam essas p... no cú e param de fazer zuada. O mininu já nasceu, oceis já tumaram o “mijo e tá bão pegá o rumo de casa! — a austeridade de D. Antera impressionava. Logo era muito respeitada na região e o melhor mesmo era atender a parteira. Sabe-se lá quando um deles iria precisar de seus préstimos novamente.

A farra da Rodada de tiquira foi dada por encerrada naquela noite.

Ficou no alpendre da porta até todos dispersarem-se. Encarou Chico Chaga com olhar suspeito e o intimou:

— Agora tu póde entrá e vê teu fio!

Chico Chaga não escutou.

— Tu num vai vê teu mininu não homi? — esbravejou Dona Antera reiterando a ordem.

Chico Chaga, absorto que estava ainda pensando na observação que fizera Dona Raimundinha, a sogra, logo que nascera o menino, sobressaltou-se.

— Vô sim sinhôra! — saiu ligeiro acompanhado Dona Antera.

Entrou no quarto e deparou-se com Gracinha, agora deitada na rede armada com o filho no colo envolto a panos limpos e mamando com entusiasmo. Dona Raimundinha passava a mão de leve nos cabelos da filha.

— Oiá aqui Chico o nosso fio! — Gracinha descobriu levemente a cabeça do recém nato para o marido olhar.
— É macho num é?
— E num e?! Espia isso, benza Deus! Isso que é um macho fogoso!
— Num tá muito esbranquiçado naum Dona a Antera?
— Tá naum homi. Quando nasci é assim mesmo!
— A senhora agarante?
— Agaranto sim sinhô! — respondeu Dona Antera sem se preocupar como seria resolvia, futuramente, essa questão de paternidade duvidosa.
— É a luz do candieiro que clareia muito — adiantou-se Dona Raimundinha tentando desfazer a dúvida.
— Posso pegá?
— Ainda não! Tá com o espinhaço muito molinho, só quando tivé mais espertinho! — precavida Dona Antera estabelecia suas regras.

Chico Chaga ficou escorado na rede um pouco e logo saiu prá fora. Olhou para o céu estrelado e suspirou fundo.

O silêncio reinava novamente no povoado. Dava para ouvir as ondas da maré alta batendo no nos pilares do trapiche e esborrifando nos cascos dos barcos. O vento salgava o ar misturando o cheiro agradável do mar que refletia a luz prateada da lua já caindo no horizonte. Paragens remotas assim inebriam nossa alma e conseguem aflorar a sensibilidade e nos remetem à realidade do País, desconhecida pela maioria dos brasileiros. A vida serena e acomodada que passa lentamente sem nenhuma objetividade, privada com naturalidade das necessidades básicas do ser humano, nos leva a refletir sobre uma possível inversão de valores. Serão eles os miseráveis excluídos e desassistidos pelas autoridades constituídas, que trabalham duro, sob sol, chuva e vento, sem conforto, escolas, saúde, vivendo alheios ao resto do mundo ou nós que pagamos altos tributos para desfrutar das benesses da sociedade moderna, induzidos que somos pelo consumismo? Não se comprometem com carnês, cartões, financiamentos, impostos, empregos ou qualquer outro compromisso que possa tirar-lhes aquela alegria que é marca registrada estampada nas faces curtidas pelo tempo e pelo sol. Sempre que convivo com essas comunidades de pescadores, pondero sobre isso.

No dia seguinte, ainda escuro, Chico Chaga é acordado aos gritos pelo companheiro de pesca Mundico. Tinha dormido mal a noite na pequena sala. Dona Raimundinha e Dona Antera armaram suas redes no quarto com Gracinha. Parteira que se preze leva a própria rede e acompanha a parida por vários dias, cuidando incondicionalmente de tudo.

— Qui qui é Mundico? — respondeu Chico Chaga sonolento.
— Simbora homi que a maré num ispera pescadô não!
— Mais assim nu cagá dos pinto?
— Hum hum tu tá leso é, já vai é amanhice! Ou tu vai ficá babando mininu novo?

Meio grogue pulou da rede vestiu a bermuda e uma camisa velha e rasgada e seguiram até o porto.
Já com a caçoeira na água e o dia claro comentou com o companheiro:

— É Mundico, agora tenho que trabaiá o drobo. A famia aumentô, vai aumentá tumém a dispesa!
— Tu nem sabe da dispesa Chico. Mininu novo num é como nóis naum que passa só no xibéu! Si bem que naum demora muito logo logo póde tumá papinha de farinha e caldo de peixe.

Mundico sabia do que estava falando. Tinha quatro filhos e a esposa já estava prenha outra vez.
Houve alguns minutos de silêncio e enquanto Chico Chaga secava o fundo da canoa com uma caneca feita de Pet cortada ao meio, Mundico perguntou indiscreto:

— Ritinha de Zé Preá disse que o mininu é branquinho feito uma galça!
— Num sei disso não! Dona Antera disse que quando nasce é assim mesmo a despois vai tumando cor. —

Chico Chaga tentava disfarçar a observação, contudo, era visível a sua contrariedade.

— Tô aqui matutando Mundico, fio de Camurim parece Camurim, fio jegue parece jegue, fio de bode parece bode, fio de mero é igualzinho o mero, que diabo que esse mininu é tão diferente os bicho tudo qui quando nasce são paricido com os pai?
— Dona Antera tá certa homi! Vai crescendo vai pegando cor — completou Mundico percebendo a bobagem que fizera. — Tu tá é pensando besteira. Tu já viste fióte de urubu?
— Naum!
— E de guará?
— Tumem naum!
Então siô... nenhum é parecido com o pai. Deixa de história. Isso vai sê um pescadô dos bão! Tali quali o pai!

A amizade de longos anos desfrutada com recíproca lealdade e confiança fazia Chico Chaga, do alto de sua ingenuidade, confiar nas palavras do amigo o que o deixava mais calmo e relaxado.

— Óia Chico, lá naquela siribeira! — gritou Mundico apontando o dedo para o manguezal.
— O qui qui é?
— Tu naum tá vendo naum? O fióte de guará, branquinho branquinho?
— Óxente! Num é que é!
— Num ti falei! Óia lá dois... ainda nem avua!
— Mundico tu acabou de tirá um peso da minha consciência, num é que é verdade! Marrapá, eles nasci bem alvinho num é?
— É Chico! Si bem que tem uns qui naum muda a cor naum! Deve ser coisa de Deus! Chico meu cumpanheiro, vô ti dizê uma coisa, ás veis a gente tem que aceitá essas encomenda de Deus! É graças a ele que nóis véve nesse mundo — Mundico filosofava parecendo saber de alguma coisa que fugia à compreensão de Chico Chaga, entretanto, parecia satisfeito com a missão de ludibriar o amigo e principalmente com a condescendência do amigo.
— Tu tá certo Mundico, o que Deus dá prá nóis é sagrado.

A maré fora boa e o pescado farto. Venderam um bocado no porto e levaram um côfo cheio de guribús, uritingas, bandeirados e corvinas para casa, cada qual com sua partilha.
Chico Chaga chegou à casa alegre e fazendo muita zuada. Sentia-se muito melhor desde que saíra para a pescaria.

— Dona Antera, Dona Raimundinha, óia os pêxe mode fazê o cuzido! E a senhora Dona Antera, tire logo uma muchiada mode mandá lá prá sua casa. Pode tirá quanto quizé da marca que quizé!

O côfo de peixe fresco exalava cheiro forte que impregnava o interior do humilde rancho, como deve ser mesmo o rancho de um pescador. Fora mesmo um dia de sorte!

— E Dona Antera, cuma é que tá meu mininu?
— Tá muito bem! Inté parece um anjinho.
— Vô lá vê meu bichinho!
— Então lave essas mão primeiro — ordenou a parteira cuidadosa.

Chico Chaga pegou uma cuia e tirando água da cacimba rasa, banhou-se rapidamente. Entrou no quarto numa carreira desenfreada e foi logo falando baixinho:

— Cadê meu fióte de guará? Cadê meu fióte de guará? Papai já chegô!
— Tá com a mulesta Chico, que diabo é isso de fióte de guará?
— É o meu fiótinho de guará Gracinha. — encostou os lábios na testa do menino e o beijou carinhosamente.

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