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Pesca Nordeste - O seu Portal de Pesca Esportiva - Noronha, o sonho que não se realizou
     
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Noronha, o sonho que não se realizou
Por Max Veras   

Durante toda a minha vida desejei conhecer o arquipélago de Fernando de Noronha, no ano passado participei de um projeto de viagem via barco, que ainda pretendo fazer, mas não se realizou. Pouco tempo depois, disse para mim mesmo, em 2006 vou de qualquer jeito. É justamente essa aventura que vou tentar narrar.

Éramos um grupo de 9 pessoas, dos quais, apenas eu e outro amigo tínhamos aptidão para pesca esportiva, e pretendíamos realizar uma pescaria aceânica. Durante os 4 dias em que passei, a pauta foi extensa, são muitos locais e detalhes a serem visitados e observados.

Chegamos no dia 17/11, sexta-feira, à tarde. Após as burocracias de praxe, entrada na pousada, aluguel de buggy e pequenos acertos para o dia seguinte, pude apreciar um belo por do sol, com o morro Dois Irmãos ao fundo, uma paisagem que ficará para sempre em minha mente. Enquanto o sol se despedia, a emoção tomava conta de mim quando eu lembrava que definitivamente eu estava em Noronha.

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 A imagem fala por si, porem apenas os olhos podem captar a verdadeira beleza desse lugar.

Com a noite, a ilha revela um outro lado pouco difundido pelo marketing turístico, a gastronomia e a vida noturna. Bons restaurantes, para todos os tipos de bolsos. Após o jantar, fomos ao conhecido Bar do Cachorro, onde participaríamos de um forró pé da serra lascada. Nunca vi algo tão ruim na minha vida. Mas, foi muito divertido, tínhamos algumas presenças de seres exóticos ou quem sabe, de outro planeta, quem dançavam de forma inusitada. Bem, tudo era festa, até o cachorro que insistia de ficar deitado no meio do salão de dança era motivo para diversão.

No dia seguinte, acordo às 4:30 da manhã, meio que assustado, o celular tocando, era meu irmão que estava em Maceió, voltando da farra e ligou para me desejar o primeiro bom dia de Noronha e dizer que gostaria de estar comigo, pois, sempre fizemos planos de irmos juntos. Mas, os destinos e obrigações nem sempre permitem que algo aconteça.

Se eu estivesse em outro lugar, certamente teria acordado de mau humor, porém, estava em Noronha, e não existia espaço para mau humor. Pude perceber que os primeiros raios do sol estavam surgindo pela fresta da janela. Calcei o tênis e fui fazer um cooper pela ilha, em destino ao porto. Ao sair do quarto, pude ver algumas arribaçãs, ave típica do sertão do nordeste que é muito perseguida por caçadores, catando alimentos em pleno jardim da pousada. Tamanha foi a minha admiração quando passei próximo delas e não esboçaram nenhuma reação de espanto, apenas se afastaram lentamente para esquerda para que eu pudesse passar pelo jardim.  Logo estava na menor BR do Brasil, correndo em direção ao porto. Cada passada revelava novas paisagens, que de certa forma serviam de energia para que eu superasse os altos e baixos do relevo da ilha.

Após uns 20 minutos de transpiração, surge a minha frente o porto. A primeira visão desse local, não é fácil de esquecer, água azul, morros e encostas onde as ondas quebram, formando uma paisagem que exprimi um equilíbrio entre o homem e a natureza. Aproveitei esse momento, para fazer alguns contatos com pescadores locais, para organizar a pescaria do dia seguinte.

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Primeiro contato com o mar de Noronha

De volta a pousada, tomei o café da manhã e rapidamente já estávamos nos bugres, com objetivo de conhecer a Praia do Sancho, simplesmente considerada como a mais bonita do país. Seguimos rumo leste, através da BR 363, que possui apenas 7,9 Km de extensão. Após alguns minutos de bom asfalto, pegamos uma verdadeira trilha, que muito lembra o sertão do nordeste. Muitas pedras e buracos faziam chacoalhar os carros, que pareciam nem se preocupar com isso.

Chegamos ao ponto de estacionamento. Paramos os carros, e caminhamos uns 300m de trilha estreita, entre a vegetação típica do sertão. Surge a nossa frente um mirante, que oferece vista a praia do Sancho. E que vista !!!

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Mirante da praia do Sancho

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Esse mirante fica sob um paredão de pedra com cerca de uns 80 m de altura. Para descer até a praia é necessário utilizar uma escada que existe numa fenda entre as rochas. A sensação é de estar praticando rapel, pois, a descida é em 90 º.  Depois de superar as fendas, pode-se ter uma visão de toda a extensão da praia. Mas, uma escadaria de cerca de 100 degraus ainda separa os visitantes. Todo esforço vale, o lugar é paradisíaco.
Ao chegar à praia, ainda sentia o coração com batimento acelerado, devido ao esforço. Mas, ao entrar no mar cristalino, a pulsação ainda aumentou, a emoção era forte, e mais uma vez eu lembrei “estou em Noronha”. A visibilidade da água era em torno dos 20 metros.  Logo estava cercado por um cardume de sardinhas assustadas, pois, os Xareus estavam famintos.
Afastei-me um pouco da praia e fui em direção a uma formação rochosa, a direita da praia. Local com profundidade de cerca de 10 m, onde puder ver outros Xareus, um Bejupirá e uma Cioba, entre outros peixes menores.
Nesse local, pude observar uma fauna marinha que em um ano de mergulho no litoral da Paraíba não conseguiria ver.
Depois do Sancho, passei a acreditar que realmente eu estava em Noronha. Então, fomos conhecer a Baía dos Porcos, praia que fica bem próximo. Local onde se pode observar de perto o Morro dos Dois Irmãos.


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Morro Dois Irmãos

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Baia dos Porcos

Isso tudo em apenas uma manhã. Pela tarde, estava agendado mergulho autônomo, através da operadora Noronha Divers.

Por volta das 13:30, estávamos no porto, embarcando rumo a um local chamado Buraco do Inferno, que fica em uma outra ilha que compõe o arquipélago. A tripulação, na maioria das vezes, formada de mergulhadores iniciantes, que nunca mergulharam com equipamento autônomo. Essas pessoas têm direito a um mergulho, que é chamado de batismo. Os mais experientes e credenciados, podem realizar duas descidas, ou seja 2 mergulhos em locais distintos.

Para saber como é a vida no fundo do mar de Noronha, tem que estar lá para sentir de perto. Muita vida, puder observar mais de 50 Barracudas de todos os tamanhos, cardume de Dentões, peixe típico de loca de pedra, que simplesmente nadam na meia água, sem preocupação alguma. Outros peixes, como o Papagaio, se aproximavam tanto dos mergulhadores, que era possível toca-los.
Quem eu esperava encontrar não apareceu, o freqüentador mais assíduo das praias de Boa Viagem, o Tubarão. Porem, fiquei satisfeito e feliz pelo mergulho. Não se pode exigir muito da natureza. O dia chega ao fim, e mais um por do sol pôde ser observado do Forte dos Remédios.

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Por do sol observado do Forte N. S. dos Remédios

Voltamos à pousada e o cansaço tomava conta de todos. Mas, lembrávamos que estávamos em Noronha, e quando se tem apenas 4 dias para conhecer um local tão bonito assim, o descanso fica para depois. 

À noite, fomos a uma pizzaria, que fica no centro histórico, e onde acontecem as melhores festas da ilha. Jantamos e brindamos a noite com muita cerveja, ao som de muito rock e reagge.

A programação do dia seguinte incluía o que mais me interessava, a pescaria oceânica, que seria à tarde, pois, bem cedo tínhamos compromisso com os corais da Praia de Atalaia. Local conhecido por formações coralíneas, que formam um grande piscina natural cheia de vida submarina. Nessa praia, apenas 100 pessoas podem visitá-la por dia, e tem que ser durante a praia baixa, pois, na maré alta, não é permitido a visitação.

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Praia de Atalaia, apenas 100 visitas por dia.


Sempre procurávamos praias próximas às mais conhecidas, para servir de segunda opção. E como o tempo de permanência na praia de Atalaia é de apenas 20 minutos para cada grupo, em consenso, acordamos que deveríamos visitar a Praia do Leão, que fica do oposto ao continente, onde o oceano esculpiu uma paisagem um pouco mais selvagem.

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Praia do Leão

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Voltamos a Vila dos Remédios por volta das 12:30, e a pescaria estava marcada para as 13:00. Almoçamos rapidamente em um self service e por volta das 13:30, eu e meu amigo estávamos no porto, a procura do pescador que tínhamos marcado compromisso. Após cerca de 30 minutos de espera, resolvemos conversar com o dono da embarcação que tínhamos acordado o passeio do dia seguinte, o qual indicou uma outra embarcação que estava chegando do mar e que tinha a tarde livre de compromissos turísticos, que aceitou a proposta de R$ 300,00 para realizar a pescaria tão aguardada.

Finalmente meu humor começou a melhorar, pois eu já considerava a hipótese de não realizar a pescaria naquela tarde. Com cerca de 10 minutos de navegação, nossas iscas já estavam na água e a minha expectativa era  grande. Eu imaginava que não conseguiria passar mais que 15 minutos sem uma ação. E também, estava disposto a romper todas as linhas possíveis.

Já se passaram cerca de quarenta minutos, e nenhum sinal de peixe, apenas alguns golfinhos, que nos deram as boas vindas e desapareceram. No horizonte avistou-se um aglomerado de gaivotas no ar e na água, sinal de cardumes de Atuns ou Cavalas. Com muita firmeza eu segurei a vara, esperando que algo tentasse tira-la da minha mão. Mas, tudo em vão, nada de peixes.
Com cerca de duas horas de pescaria, finalmente alguma coisa se enroscou na isca, e pouca linha foi tirada do carretel. Rapidamente recolhi, mas, apenas a isca estava lá. Isso foi um bom sinal, e dez minutos após, outra ação e dessa vez mais forte, levando um pouco mais de linha. Um grito de felicidade e vibração encheu meu rosto com um grande sorriso, impossível de esconder.


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Finalmente peixe na linha...

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Esse é o sentimento que motiva os pescadores esportivos a sempre buscarem grandes emoções. Não foi o peixe que eu esperava, mas diante a situação, não tinha por que reclamar. Sem grande resistência, a pequena Barracuda de 3 Kg entregou-se e foi embarcada. Nesse momento pude erguê-la como um grande troféu.
Nossa pescaria embarcada ficou apenas nisso. Definitivamente não foi o que eu esperava, mas o que fazer diante da natureza, apenas aceitar a realidade dos fatos.
Só posso encontrar explicação para o fato dos peixes não aparecerem na condição climática. O tempo tava chuvoso e em alguns momentos do dia, ventou muito.  E existia previsão de ressaca no mar, isso pode explicar o fato do mar estar um pouco sujo, para os padrões de Noronha, e a temperatura da água estar muito fria.  Nessas características, nunca fiz uma pescaria produtiva.
Mas, como um bom brasileiro, eu não desisto fácil. Ainda existia a possibilidade de pescaria de barranco, na região do porto, onde é permitida a pesca para turistas.  Obtive informações que nessa região seria muito fácil capturar bons Xareus.
O sol já dava sinais de fraqueza, e começava mais um ritual de despedida. Nesse momento tem-se a impressão que tudo silencia para reverenciar o nosso astro maior, e quem sabe agradecer por mais um dia de muita luz. 


 

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Belo final de pescaria.

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O porto despede-se do sol.

No dia seguinte, tínhamos compromisso com nossa última pauta, o passeio de barco pelas ilhas, com direito ao “Plana Sub”, modalidade de mergulho em que a pessoa utiliza uma pequena prancha de acrílico que é presa ao barco por uma corda de uns quinze metros, enquanto que o barco navega lentamente pela ilha. Esse tipo de passeio permite a observação de muitas formações rochosas no fundo do mar, com direito a muitas surpresas, como golfinhos, tartarugas e possíveis tubarões.

Mas, como nem tudo são flores, nesse dia, o mar estava com a água turva, com alguns lugares com péssima visibilidade, embora, em outros lugares oferecerem melhor condição. Considerei muito positivo esse tipo de mergulho, mesmo com adversidades e sem grandes surpresas, pois, nenhuma delas apareceu.   

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Plana Sub


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Ponto extremo da ilha

Durante esse passeio, pude observar muitos pontos da ilha que só é possível embarcado. A beleza selvagem e preservada das formações vulcânicas é algo que chama a atenção de todos. São lugares onde se tem a impressão que o homem nunca esteve por lá.

Diante de tantas belezas naturais, imaginem as possibilidades de pesca esportiva nessas regiões. Mas, pescaria só é permitida na área do porto até a praia da Cacimba do Padre, ou no oceano, a partir de locais com mais de cinqüenta metros de profundidade.

Por volta do meio-dia, voltamos a pousada, é chegada a hora da partida, menos para mim, que ficaria mais dia. Fizemos um almoço rápido e por volta das 14:00 horas, já tinha deixado todos no aeroporto.

Voltei para pousada para descansar um pouco, pois, as próximas horas prometiam boas emoções. Já existia uma pauta, iria pescar no final da tarde, tentar capturar alguns Xareus e à noite seria a comemoração do dia da consciência negra, e uma grande festa estava sendo organizada.

Por volta das 16:00 horas, estava chegando ao porto, o objetivo seria pescar na extremidade do molhe, onde existe um canal de passagem de embarcações e um naufrágio bem próximo. Com muita vontade superei a grandes pedras que formam o molhe, encontrando um local semi-plano e bastante cômodo. A expectativa do primeiro arremesso sempre é grande, e para minha felicidade, um Xareu de uns 2 Kg atacou minha isca de superfície, ballyhoo de 15 cm, sem chance de levar linha, pois, estava usando linha multifilamento de 50 lbs. O reboque foi tão grande que quando foi pegar o peixe ele soltou-se da garatéia.

Meu coração ficou pulsando mais forte que nunca, imaginava que seria uma verdadeira festa de peixes. Mas, não era mesmo o dia do pescador. Apenas outro pequeno Xareu e uma Barracudada foram capturados.

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Quando o sol se foi, eu já estava conformado que não seria dessa vez em que conseguiria uma boa pescaria no mar. Os grandes exemplares nem ao longe davam sinal de vida. Restou-me, respeitar e submeter-se a vontade da natureza. E apreciar mais show do mestre solar.

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O último por sol

Nem tudo na ilha é perfeito como a natureza, problemas sérios de infra-estrutura são enfrentados diariamente por todos que vivem no local e refletem diretamente no turismo. A falta de energia elétrica e água fazem parte do cotidiano de Noronha. E tudo tem solução, apenas depende de força política, assim como tudo nesse país. Eu esperava que pelo menos um lugar desses estivesse livre da lama a mazelas, que tanto caracteriza os administradores do continente.

O sol se foi, a energia também, e assim, a festa que estava organizada para comemoração do dia da consciência negra sucumbiu. E por ironia do destino justamente nesse dia, a ilha resolveu homenagear com uma noite realmente escura.

A energia voltou por volta das 22:00 horas, mas tudo já tinha sido cancelado e só restava voltar a pousada e descansar para o próximo dia. A pauta seguinte, contemplava mais uma tentativa de pescaria no porto e surf na Praia da Conceição.

Acordei bem cedo e fui direto ao porto, ainda tinha esperanças de pegar um bom peixe. Repeti o mesmo percurso do dia anterior, e apenas um pequeno Xareu fora capturado. Resolvi tentar alguns arremessos próximo a praia, onde algumas ondas quebravam e existia uma maior oxigenação da água. Após alguns arremessos, um outro Xareu de 2 Kg atacou na superfície e mais uma vez foi rebocado e escapou dos anzóis quando estava para ser pego pelo alicate pega-peixe. Desconfiei que esses peixes fossem muito tímidos e não gostassem de fotos, sempre escapavam da minha lente.
Como o tempo era curto, porque o vôo estava marcado para às 15:30 da tarde, voltei rápido para pousada, onde tomei um café reforçado e fui direto para a Praia da Conceição, local muito apreciado pelos surfistas. Tinha locado um kit profissional de Bodyboard, prancha e nadadeira.

Ao chegar na praia, observei que as ondas não eram tão grandes, quebravam por igual e apenas dois surfistas aventuravam-se a direita da praia. Então, resolvi manter uma certa distância deles e comecei a enfrentar o mar. Foram uns 10 minutos de esforço, até superar a área de rebentação. Consegui chegar no ponto de formação das ondas, e nesse momento uma parede água de uns três metros de altura se formou a minha frente, e não tive como passar por ela, nem tão pouco enfrenta-la. Nesses casos, o mar não costuma perdoar. Fui engolido pela onda e passei por momentos de aflição no fundo, por não conseguir subir para respirar. Fiquei assustado e impressionado com a força das ondas. Quase que fico de vez no mar de Noronha.

Mas, não sou fácil de desistir, entrei novamente no mar, disposto a descer qualquer onda. E mais uma vez fui engolido por outra onda. Sou persistente, mas, não sou imprudente, então, resolvi sair da água e limitar-se a apreciar o visual. E como ninguém é de ferro, uma gelada sempre vai bem nessas horas.

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Bar Duda Rei, praia da Conceição

 E assim findou-se meus dias no paraíso de Fernando de Noronha. Onde pude perceber que homem e natureza podem viver em grande harmonia e respeito mútuo, e com geração de divisas. Fiquei com ótimas impressões da ilha, é possível sim viver em equilíbrio com a natureza.

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