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Em nome de Deus
Por Marco Antônio Guerreiro Ferreira   
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A todo o momento cresce o número de estruturas de pesca esportiva no Amazonas, seja na forma de barcos-hotel, acampamentos ou mesmo hotéis de selva. Se por um lado isso é positivo, pois o aumento de turismo ordenado leva ao desenvolvimento e gera recursos para a região, por outro lado, paradoxalmente, pode ocasionar a diminuição desse mesmo turismo. Como isso é possível?

Vejamos como exemplo o caso dos barcos-hotel. Existem hoje dois pólos principais de concentração dessa modalidade (barcos-hotel), Manaus e Barcelos. Se considerarmos que o tempo padrão de uma excursão de pesca é de uma semana, veremos que os locais possíveis de atuação estão limitados pela distância, e basicamente todos os barcos estarão pescando inevitavelmente dentro de uma mesma região, pois os pesqueiros são determinados pela altura das águas e numa mesma temporada mudam de ponto acompanhando a vazão da água. À medida que novas embarcações entram no mercado, vai diminuindo o espaço vital para a pesca. Hoje Manaus conta com 10/15 barcos em operação, ao passo que Barcelos já está ultrapassando a casa dos 06 barcos. Se houvesse um consenso quanto à quantidade e tamanho de peixes embarcados, não estaríamos agora discutindo esse assunto, mas não é esse o caso. A depredação é constante, principalmente pelos pescadores profissionais e mesmo amadores de Manaus, que não acreditam na extinção do peixe, embora a situação esteja mudando, graças ao trabalho de programas como Pesca Amazônia, pescadores esportivos locais e empresários da pesca com mentalidade ajustada aos novos tempos. O turista de outros estados, de um modo geral, tem um pouco mais de consciência, principalmente os oriundos do sul do país, pois já foram bombardeados por revistas especializadas e programas de televisão em maior grau. Tem mais acesso às informações. Mas nós, do sul, temos também nossos matadores empedernidos. Vejam o que aconteceu com o Pantanal...

Uma das alternativas possíveis para minimizar esse problema e mesmo equilibrar os estoques pesqueiros seria a descoberta de locais ainda não explorados à exaustão e proibir a pesca profissional indiscriminada, fechando o local e permitindo apenas a pesca esportiva, no sistema pesque e solte. Esses locais existem, acreditem, e mais perto do que se pensa.

Evidente que a pesca praticada pelos ribeirinhos para sustento continuaria intocada, mas a pesca para revenda do peixe seria proibida. Muitas comunidades já se aperceberam disso e estão dispostas a tentar, mas aí o bicho pega, pois existem muitos interesses camuflados, de poderosos que fazem questão de manter o povo desinformado e submisso.

 Atendendo ao convite de uma dessas comunidades, que começam a tomar consciência do problema e gostariam de mudar a situação, estivemos em agosto de 2000 em reunião convocada por um líder comunitário, o Sr. Targino, no município de Altazes, para discutir o fechamento do Rio Mutuca, onde a pesca profissional já é proibida, pelo menos em tese, como comentaremos adiante.
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Feitas as apresentações e após tocar o hino da comunidade, o Sr. Targino deu a palavra ao Sr. João Batista, pastor evangélico da igreja Assembléia de Deus, que após conclamar todos a uma oração, começou seu discurso nos seguintes termos: Meus irmãos, aleluia! Minha palavra é que sou contra esses predadores que vem destruir nosso rio. Se eles insistirem em entrar, temos que mobilizar 200 homens, e  se preciso com força de armas, para expulsá-los, por bem ou por mal. E continuou por aí afora. Disse inclusive que seus amigos lhe fornecem peixe e caça de graça, embora não precise, pois tem um bom ordenado e se fosse o caso pagaria sem problemas. O pastor não sabe que a caça é proibida? E o peixe que recebe de graça não é desviado de quem realmente precisa?
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Ficou evidente a todos os presentes mais esclarecidos que o pastor estava a serviço de interesses ocultos, acobertado ou não  pela igreja a que serve, pois por qual outro motivo seria contra o desenvolvimento de um povo carente e sofrido? Seria por medo de perder o dízimo? Ou tem participação no comércio do  peixe que é pescado clandestinamente?

Há séculos são cometidas barbaridades em nome da igreja, qualquer que seja, e também em nome de Deus. A Inquisição e colonização dos gentios, as Cruzadas,  entre outros exemplos, estão aí como testemunhas da história. Como pode um servo de Deus apregoar a violência armada, e ainda por cima se aproveitar da boa fé dos inocentes? Como pode se acobertar sob o manto de uma instituição religiosa para agir em benefício próprio? Lamentavelmente, quanto menos esclarecidos e mais mal informados, maior a submissão do povo.

Nossa proposta para o Mutuca era o fechamento do rio para a pesca profissional e a abertura para a pesca amadora, no sistema pesque e solte, nos seguintes termos:

- Tínhamos o compromisso de contratar os moradores da região como guias piloteiros, dando-lhes inclusive treinamento para receber o turista. O próprio guia seria o elemento fiscalizador para garantir a soltura do peixe. O “rancho”(alimentação) seria adquirido das comunidades, garantindo assim uma renda extra. Só o que não pudesse ser obtido no local seria levado de Manaus. O turista poderia adquirir artesanatos dos moradores, caso se preparassem para isso.

 Esse seria o pontapé inicial, com os desdobramentos que fatalmente viriam, como eventualmente construção de hotéis de selva, postos de saúde, etc.

Uma vez que tivéssemos a aquiescência da comunidade, o objetivo era tornar a coisa oficial, via o PNDPA ou órgãos afins.

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Era esse o nosso objetivo. Evidentemente nós, pescadores esportivos, também seríamos beneficiados, assim como a natureza e a comunidade local. Um negócio só é bom quando o é para todos.

Após o pronunciamento do pastor, tomou a palavra o presidente da comunidade, que subiu ao palco alcoolizado, gerando protestos ( na surdina ) por parte de alguns moradores. Falou apenas o suficiente para dizer que concordava com o pastor, mas deixava a decisão da liberação da pesca esportiva  nas mãos da comunidade.

Posteriormente falaram a candidata a vereadora Srta. Ivoneide e o candidato a prefeito por Altazes, Sr. Tomé. Ambos abordaram o problema lucidamente, como pessoas esclarecidas que são, se colocando a favor do turismo da pesca esportiva, desde que ordenado e trazendo benefícios para a região.

Anteriormente comentamos que nessa região a pesca profissional já estava fechada, pelo menos em tese. Dissemos em tese porque sabemos de moradores que pescam o peixe para fornecer para atravessadores. Os próprios moradores sabem disso e sabem quem são. Por outro lado, conhecemos uma senhora que pesca há 10 anos no rio Mutuca e é proprietária de um motel e de um restaurante em Manaus. Considera-se pescadora esportiva e adota o lema que tucunaré bom é o tucunaré dentro do isopor. Por outras fontes, soubemos que o produto de sua pesca é direcionado para seu motel e seu restaurante, pelo menos uma parte. Como essa senhora tem permissão para pescar livremente nesse rio? Simples: É proprietária de uma casa na beira do rio...

Com relação à proibição de pesca esportiva nos rio do Amazonas, estivemos antes dessa reunião no Mutuca com o coordenador geral do Ibama em Manaus, para saber a posição oficial do orgão. Convidamos na ocasião o coordenador ou algum representante da instituição para participar do evento, uma vez que assim teríamos respaldo legal, colocando nosso barco ( Miss Bebel ) à disposição para viagem, alojamento e refeições. Ficaram de nos confirmar, mas não passou disso. Quanto às proibições, nos informaram que desde que não sejam áreas de proteção ambiental, como a Reserva do rio Jaú, por exemplo, não existem leis que proíbam a prática da pesca esportiva, com varas, carretilhas ou molinetes. Nada impede o direito de ir e vir do pescador, mesmo porque o rio não é de propriedade particular, e sim da União. O que acontece é que existem dois tipos de lei: - A lei oficial e a lei local. A lei oficial não é cumprida por falta de condições de fiscalização, e a lei local é imposta pelos moradores de cada região. Dito isto, nos aconselharam a tentar fazer a negociação com os moradores, e o resto vocês sabem...
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Até a presente data a decisão continua em discussão, e não esperamos uma solução a curto prazo.

Cada vez mais temos consciência de que o tempo passa e nada muda. Como sempre foi, os menos favorecidos continuam oprimidos pelos interesses dos poderosos, e o que é pior, EM NOME DE DEUS.
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PS: Não sei hoje (2006) como está a coisa. Me parece que o Sr. Targino acabou montando uma estrutura tipo hotel de selva. De barco, o Rio Mutuca fica a 14 horas de Manaus, aproximadamente, mas é possível fazer a viagem de carro, demorando cerca de 4 horas de Manaus, incluindo a travessia de balsa para o Careiro. Essa matéria foi escrita em 2000 e não foi publicada pela revista Troféu porque na época a revista tinha um programa de pesca na TV Record, o “Caminhos da Pesca”, e como a Record pertencia (e pertence) a uma igreja protestante (Universal do Reino de Deus), o dono da Troféu ficou com medo de publicar e sofrer retaliações, como por exemplo a retirada do programa do ar.
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