{"id":999,"date":"2008-03-20T13:10:29","date_gmt":"2008-03-20T16:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=999"},"modified":"2021-10-01T10:17:09","modified_gmt":"2021-10-01T13:17:09","slug":"cobrinha-cu-de-cana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/cobrinha-cu-de-cana\/","title":{"rendered":"Cobrinha c\u00fa-de-cana"},"content":{"rendered":"\n<p>Esta est\u00f3ria se passou h\u00e1 dez anos atr\u00e1s, quando eu e meu primo Adriano fomos pescar na Lagoa do CATRE, hoje denominado BANT. Naquela \u00e9poca, minha pescaria era meramente artesanal, n\u00e3o investia muito em equipamentos, quer dizer, n\u00e3o investia nada em equipamentos; pesc\u00e1vamos mesmo com varej\u00e3o de tr\u00eas metros, na t\u00e3o famosa pesca de \u201cpinda\u00edba\u201d, que segundo o nosso Aur\u00e9lio, quer dizer \u201cfalta de dinheiro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheg\u00e1vamos por volta das 13h e fic\u00e1vamos pescando uns tapac\u00e1s, que naquela \u00e9poca j\u00e1 eram abundantes. Em pouco tempo, ench\u00edamos uma enfieira, e como era de costume, j\u00e1 \u00edamos tratando os bichinhos, para n\u00e3o ter que faze-lo em casa, at\u00e9 que chegasse a hora da verdadeira pescaria que t\u00ednhamos ido fazer. &#8230;a pesca da tra\u00edra. Naquela \u00e9poca, costum\u00e1vamos pegar tra\u00edras de at\u00e9 tr\u00eas quilos. Era mesmo de tremer a vara, quando uma agarrava o anzol.<\/p>\n\n\n\n<p>A lagoa n\u00e3o tinha suas margens t\u00e3o devastadas, quanto \u00e9 hoje. Havia muita vegeta\u00e7\u00e3o e os juncos tomavam conta de toda a beira d\u2019\u00e1gua, o que proporcionava \u00f3timos pesqueiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse dia, por volta das 17h, come\u00e7amos a nos preparar para pegarmos as nossas primeiras tra\u00edras, pois j\u00e1 era hora boa. Como ningu\u00e9m \u00e9 de ferro, e precis\u00e1vamos de algo que aquecesse a noite que j\u00e1 vinha caindo, lev\u00e1vamos uma garrafa de cacha\u00e7a, que de trago em trago, j\u00e1 beirava o meio. N\u00e3o demorou, e as primeiras tra\u00edras bateram nos anz\u00f3is, devidamente iscados com peda\u00e7os de tapac\u00e1s. A noite come\u00e7ara a cair, quando ouvimos bem pr\u00f3ximos, um tipo de som, muito parecido com miado de gato. Era quase um gatinho desesperado, e n\u00e3o parava um s\u00f3 instante. Aquilo me deixou nervoso e indaguei com meu primo, o que seria aquilo, que prontamente respondeu:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211;&nbsp;Voc\u00ea nunca havia ouvido esse barulho?&#8230;\u00e9 o barulho de um ca\u00e7ote sendo engolido por uma cobra.<br>&#8211;&nbsp;O que \u00e9 um ca\u00e7ote? Perguntei de imediato!<br>&#8211;&nbsp;\u00c9 um tipo de r\u00e3 que fica na beira das lagoas, e que \u00e9 a melhor isca para pegar tra\u00edra que eu conhe\u00e7o. Disse ele j\u00e1 se levantando, com a inten\u00e7\u00e3o de procurar a cobra, e captur\u00e1-la, para&nbsp; pegarmos o ca\u00e7otinho para faz\u00ea-lo de isca.<\/p>\n\n\n\n<p>Procuramos, por cerca de cinco minutos, seguindo o som do \u201cmiado\u201d do ca\u00e7ote em meio aos juncos e encontramos o bichinho com a metade do corpo dentro do maxilar de uma cobra corre-campo de quase um metro de comprimento. A cobra estava im\u00f3vel, pois \u00e9 assim que ela fica quando est\u00e1 se alimentando, e n\u00e3o teve a inten\u00e7\u00e3o de fugir; o que facilitou que a peg\u00e1ssemos e retir\u00e1ssemos de sua boca a&nbsp; pequenina r\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Pequenina era o modo de dizer, pois a mesma tinha de largura de corpo quase tr\u00eas vezes a largura da cabe\u00e7a da cobra. Para engolir a r\u00e3 com todo aquele di\u00e2metro de corpo, a cobra dilatou o maxilar para conseguir engoli-la e permaneceu assim por algum tempo quando retiramos o bichinho de sua boca. Ao ver aquela boca toda \u201carreganhada\u201d quis fazer uma experi\u00eancia e coloquei um gole de cacha\u00e7a goela \u00e0&nbsp; dentro da cobrinha e a soltei no ch\u00e3o pra ver a sua rea\u00e7\u00e3o que n\u00e3o foi outra; a cobra se contorceu por um instante e disparou para dentro do mato sem deixar vest\u00edgio. &#8230;ap\u00f3s algumas risadas, por ver o desespero da cobra, cortamos o ca\u00e7ote em quatro peda\u00e7os e iscamos os anz\u00f3is com a certeza de pegarmos boas tra\u00edras.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 quase escurecendo e com os anz\u00f3is na \u00e1gua \u00e0 espera da fisgada, o sil\u00eancio do crep\u00fasculo que at\u00e9 ent\u00e3o s\u00f3 era quebrado pela cantiga de sapos e de grilos, foi estremecido por um som de um chicote, seguido do grito, quase de parto, de meu primo, que largou a vara da m\u00e3o, pulou por cima do junco e caiu dentro d\u2019\u00e1gua, com os olhos esbugalhados.&nbsp; Assustado, olhei para o local onde ele estava e fiquei perplexo ao ver aquela cena: a cobra que ach\u00e1vamos que t\u00ednhamos sacaneado, voltara com mais dois ca\u00e7otes na boca, para trocar por mais uma dose de cacha\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Daquele dia em diante, n\u00e3o nos faltou ca\u00e7ote para pegarmos tra\u00edra, pois fizemos uma parceria e sempre que \u00edamos pescar, lev\u00e1vamos uma garrafa de cana e ao chegar na lagoa j\u00e1 encontr\u00e1vamos com a cobrinha \u00e0s margens com uma meia d\u00fazia de ca\u00e7otes j\u00e1 a nossa espera, at\u00e9 o dia que a encontramos morta, toda inchada, com os sintomas de cirrose.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ela morreu eu n\u00e3o sei, s\u00f3 sei que foi assim!<\/p>\n\n\n\n<p>Vejam as fotos da bichinha!<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300036as5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"240\" src=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300036as5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1000\" srcset=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300036as5.jpg 320w, https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300036as5-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300038hc5.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"240\" src=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300038hc5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1001\" srcset=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300038hc5.jpg 320w, https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300038hc5-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><a href=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300039we4.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"240\" src=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300039we4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1002\" srcset=\"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300039we4.jpg 320w, https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/s6300039we4-300x225.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/a><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta est\u00f3ria se passou h\u00e1 dez anos atr\u00e1s, quando eu e meu primo Adriano fomos pescar na Lagoa do CATRE, hoje denominado BANT. 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