{"id":995,"date":"2008-02-27T23:47:00","date_gmt":"2008-02-28T02:47:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=995"},"modified":"2021-10-01T10:07:29","modified_gmt":"2021-10-01T13:07:29","slug":"ze-bago-e-o-touro-do-pareia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/ze-bago-e-o-touro-do-pareia\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Bago e o touro do pareia"},"content":{"rendered":"\n<p>Voltamos ao Par\u00e1 para outra pescaria na fazenda do nosso amigo Pareia \u00e0s margens do rio Vermelho. Junto com o seu vaqueiro \u00d3ta, estava esfuziante.<br>A vacada fora manejada. para pastagens descansadas formadas por pequenas plan\u00edcies, planaltos e vales verdejantes, de capim nutritivo e de muita sustan\u00e7a. As chuvas em abund\u00e2ncia e, no tempo certo, foram uma d\u00e1diva da natureza como sempre, apesar das agress\u00f5es cont\u00ednuas e violentas a ela imposta sem piedade. N\u00e3o se via mais as queimadas que precedia a derrubada da floresta, em gigantescas aspirais que cobriam o c\u00e9u por dias seguidos. A regi\u00e3o, pr\u00f3xima \u00e0s encostas da Serra dos Caraj\u00e1s, no sul do Par\u00e1, com grandes extens\u00f5es de pastagem e campos estava verdejante. O cen\u00e1rio era de uma paisagem cheia de vida demarcada por centenas de pontos brancos das silhuetas do gado pastando, contrapondo-se ao do per\u00edodo da seca, de apar\u00eancia est\u00e9ril, quase desoladora. Quinhentas rezes come\u00e7ariam a parir entre julho e outubro, quase que simultaneamente e isso, entre outras coisas, significaria trabalho duro, coisa para vaqueiro destemido, aguerrido e experiente. A tarefa penosa de, diariamente, revisar e restaurar cercas, ajudar partos complicados, apartar bezerros prematuros com defeito de nascen\u00e7a, arrumar ama de leite para os \u00f3rf\u00e3os, vacinar e marcar rec\u00e9m nascidos, entre diferentes ocupa\u00e7\u00f5es, levara o \u00d3ta a interpelar sem muito rodeio o patr\u00e3o:<br>\u2014Si\u00f4, a coisa t\u00e1 arrochando! \u2014 foi direto e incisivo.<br>\u2014A vacada t\u00e1 parindo feito pre\u00e1 na ro\u00e7a e o trabaio t\u00e1 drobado e tu agora n\u00e3o qu\u00e9 mais nada com a dureza, n\u00e3o vou d\u00e1 conta naum sinh\u00f4! O aperreio \u00e9 grande!<br>Reclamava com raz\u00e3o. Pareia vivia mais na cidade e at\u00e9 ent\u00e3o, \u00d3ta estava dando conta do recado, por\u00e9m com as vacas come\u00e7ando a parir, a situa\u00e7\u00e3o estava mudando e isso o deixava preocupado.<br>Pareia relutou um pouco, mas concordou. Afinal n\u00e3o estava mais se dedicando \u00e0 lida como dantes e tamb\u00e9m, pelo menos por ora, n\u00e3o abriria m\u00e3o da vida boa e agrad\u00e1vel da cidade, no meio do raparigal.<br>Na semana seguinte apareceu com um vaqueiro trazido l\u00e1 das bandas do Parauapebas. Ainda muito jovem, contudo, bem recomendado por conhecidos. Pareia apresentou-o ao \u00d3ta e fez algumas recomenda\u00e7\u00f5es enquanto mostrava de forma superficial a propriedade. \u00d3ta se deu por satisfeito com o novo colega, certo que de f\u00edsico pouco atarracado, meio magro, mas nada que o descredenciasse para o posto. Vaqueiro tem dessas coisas, n\u00e3o \u00e9 pelo tamanho que se escolhe.<br>\u2014Conhe\u00e7o pi\u00e3o b\u00e3o de lida na primeira \u00f3iada. \u2014comentava com atributo de quem nascera na lida e revelando alguns quesitos para a conceitua\u00e7\u00e3o:<br>\u2014Pernas troncha, arqueadas, meio de rosca, modi a roseta segur\u00e1 o vazio do animal, m\u00e3o fortes, de macho, cabe\u00e7a erguida e n\u00e3o pode t\u00ea c\u00fa seco, a\u00ed sim, reseste o baque de sela.<br>Pareia deixou os vaqueiros s\u00f3s e retornou \u00e0 cidade. N\u00e3o houve formalidades na apresenta\u00e7\u00e3o. Enquanto \u00d3ta apartava a montaria escolhida para o novo companheiro, para sem delongas iniciar o trabalho da fazenda, perguntou lhe o nome.<br>\u2014Z\u00e9! \u2014respondeu em monoss\u00edlabo.<br>\u2014E Z\u00e9 de que?<br>\u2014Z\u00e9 B\u00e1go!<br>\u00d3ta achou o nome no m\u00ednimo curioso, mas para ele bastava, visto que por aquelas bandas n\u00e3o era costume das pessoas terem nomes de pronuncia complicada e longa, Z\u00e9 estava bom demais!<br>Passaram-se os dias e Z\u00e9 B\u00e1go, cada vez mais, demonstrava suas qualidades de bom vaqueiro. \u00c1gil no la\u00e7o, bom de galope e muito preparo em arrebanhar, manejar e tanger o gado. \u00d3ta estava satisfeito, al\u00e9m de tudo ganhara companhia permanente na casa da fazenda, onde andava muito solit\u00e1rio desde a partida do patr\u00e3o. Certo dia, durante os preparativos para a castra\u00e7\u00e3o de quatro novilhos pra engorda, confinados numa pequena baia, trabalho que tamb\u00e9m testaria o novato, \u00d3ta descobriu o significado da palavra B\u00e1go que Z\u00e9 trazia associado ao nome.<br>\u2014\u00cai \u00d3ta, tu gosta de cum\u00ea os b\u00e1go dos bichu?<br>\u2014M\u00e1 rap\u00e1iz, como \u00e9 tudinho! Dou uns pros cachorros e o resto passo na banha quente e misturo com farinha. \u2014 respondeu dando a receita.<br>\u2014E tu Z\u00e9 B\u00e1go?<br>\u2014N\u00e3o perdo unzinho! Oi\u00e1 s\u00f3 o nome, Z\u00e9 B\u00e1go, isso \u00e9 modi a mania que tenho de aprici\u00e1 muito os culh\u00e3o do bicho! \u00c9 frito, \u00e9 na brasa, do jeito que vinh\u00e9!<br>\u2014Ent\u00e3o adespois assep\u00e1ra uns a\u00ed pros cachorros e aprep\u00e1ra o resto modi faz\u00ea o frito antes do escurec\u00ea. \u2014ordenou o vaqueiro chefe.<br>O test\u00edculo do boi, ap\u00f3s a castra\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito disputado entre vaqueiros e cachorros nas fazendas pecuaristas da regi\u00e3o. Os c\u00e3es comem in natura, mas pe\u00f5es os transformam em iguarias preciosas. Os novilhos, de pouca heran\u00e7a gen\u00e9tica ou apar\u00eancia sem muito garbo, aos quais recai a triste sina, s\u00e3o submetidos a um tratamento de exclus\u00e3o traumatizante, doloroso e rudimentar durante o processo. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma comisera\u00e7\u00e3o por parte dos vaqueiros, nenhum anest\u00e9sico ou qualquer outro m\u00e9todo que possa aliviar o trauma do animal, quanto muito, uma lavada r\u00e1pida com anti-s\u00e9ptico no interior do escroto que, aberto a canivete, apresenta-se fl\u00e1cido e sanguinolento depois de extirpados os bagos. \u00d3ta garante que em poucos dias est\u00e3o pastando e com o ferimento cicatrizado:<br>\u2014Ficam parecendo umas nuvia fresca de t\u00e3o manso. \u00c9 s\u00f3 n\u00e3o descuid\u00e1 modi num d\u00e1 bicho. \u2014esclareceu com sapi\u00eancia.<br>Terminada a castra\u00e7\u00e3o e ap\u00f3s as recomenda\u00e7\u00f5es, \u00d3ta deixou Z\u00e9 B\u00e1go finalizando o trabalho de confinamento dos animais e foi reparar uma vacada prenha em outra pastagem. Retornou j\u00e1 no fim da tarde, tirou a sela da montaria ofegante, tomou um banho de cuia r\u00e1pido e aproximou-se de Z\u00e9 B\u00e1go:<br>\u2014T\u00f4 brocadinho de fomi! Frit\u00f4 os b\u00e1go? \u2014perguntou ansioso e esfomeado.<br>\u2014J\u00e1 t\u00e3o preparadinho, na farinha. \u2014respondeu-lhe o cozinheiro improvisado.<br>\u2014Vix\u00ea, deu foi muito! Tu n\u00e3o deste nadinha pros cachorros?<br>\u2014Dei nada naum! Os morto de fomi fizeram foi roub\u00e1 antes que eu desse f\u00e9. \u00d3ta, analfabeto de pai e m\u00e3e, mas b\u00e3o de conta de cabe\u00e7a estava desconfiado daquela hist\u00f3ria. O resto da subtra\u00e7\u00e3o n\u00e3o batia com sua equa\u00e7\u00e3o. Sagaz, inquiriu o novato:<br>\u2014Roubaram quantos?<br>\u2014Quatro b\u00e1go!<br>\u2014Tu t\u00e1 mim enrolando homi! Aqui tem seis b\u00e1go, se roubaram quatro tinha que t\u00ea sobrado s\u00f3 quatro\u2014contestou enquanto recontava os test\u00edculos mergulhados na farinha, separando-os com um garfo.<br>\u2014Tu n\u00e3o sabes contar naum? Os cachorros roubaram num foi dois? Ent\u00e3o? \u2014meio desconfiado e sem jeito, Z\u00e9 B\u00e1go justificou-se:<br>\u2014Sabe o que \u00e9 \u00d3ta, esses ladr\u00e3o roubaram quatro bagos, eu achei que a sobra era pouca modi faz\u00ea o frito e capei aquele outro novilho do curral de l\u00e1, aquele metido a besta!<br>\u2014mae que pariu Z\u00e9 B\u00e1go, tamu fudido! Tu \u00e9 louco \u00e9? Cap\u00f4 o boi que o homi escolheu modi cubri, as vacas pro ano, seu fio de uma \u00e9gua! Tu vai ter que pag\u00e1 o nuvio de estima\u00e7\u00e3o do patr\u00e3o! Int\u00e9 nome j\u00e1 tinha!<br>\u2014Num sabia naun sinh\u00f4 que era pr\u00e1 reprodut\u00f4!<br>\u2014E agora? O que \u00e9 que n\u00f3is vamu faz\u00ea abestado?<br>\u2014U\u00e9, vamu cum\u00ea! E vamu que t\u00e1 esfriando!\u2014respondeu Z\u00e9 B\u00e1go, calmo, n\u00e3o demonstrando nenhum remorso. \u00d3ta apanhou o prato em sil\u00eancio, serviu-se de uma por\u00e7\u00e3o de arroz requentado com feij\u00e3o de corda, dividiu a farofa de bagos com o companheiro e balbuciou pensativo:<br>\u2014\u00c9, o jeito! Mais que tamu fudido tamu!<br>Sentaram-se no mocho de madeira com os pratos na m\u00e3o e come\u00e7aram a comer. Os dois c\u00e3es, ruins de guarda, mas bons de lida com o gado, estavam deitados ao lado com olhos fixos nos pratos dos vaqueiros. Z\u00e9 B\u00e1go os mirou bem, bateu o p\u00e9 no ch\u00e3o amea\u00e7ador e resmungou:<br>\u2014Dois ladr\u00e3o f\u00e9la da mae! Tinha que roub\u00e1 os bago dos boi!<br>Tentava induzir o \u00d3ta a acreditar que a culpa da desgraceira poderia perfeitamente recair sobre os dois pobres c\u00e3es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voltamos ao Par\u00e1 para outra pescaria na fazenda do nosso amigo Pareia \u00e0s margens do rio Vermelho. Junto com o seu vaqueiro \u00d3ta, estava esfuziante.A vacada fora manejada. para pastagens descansadas formadas por pequenas plan\u00edcies, planaltos e vales verdejantes, de capim nutritivo e de muita sustan\u00e7a. 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