{"id":993,"date":"2008-02-27T23:44:40","date_gmt":"2008-02-28T02:44:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=993"},"modified":"2021-10-01T09:55:03","modified_gmt":"2021-10-01T12:55:03","slug":"a-onca-do-rio-caru","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/a-onca-do-rio-caru\/","title":{"rendered":"A on\u00e7a do rio Car\u00fa"},"content":{"rendered":"\n<p>A noite veio repentina, como um v\u00e9u escuro estendendo-se sobre a imensid\u00e3o da floresta. Seu teto sem estrelas, sem luz ,por mais paradoxo que pare\u00e7a, traz uma indescrit\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de calma e uma incr\u00edvel paz de esp\u00edrito. O acampamento armado \u00e0 beira do rio Car\u00fa, extremo oeste da Amaz\u00f4nia Maranhense, permitia ouvir o incessante borbulhar das \u00e1guas r\u00e1pidas rasgando caminho entre troncos e coivaras entrela\u00e7ados pelas margens, caracter\u00edsticas de rios amaz\u00f4nicos. \u00c0 noite a umidade do ar diminui sensivelmente e a aragem refrescante conforta seu corpo exaurido das pescarias do dia. No rio Car\u00fa navega-se por horas e horas em busca dos melhores pesqueiros por trechos que n\u00e3o permitem o uso do motor de popa devido \u00e0s estruturas de pauleira que obstruem a passagem aqui e acol\u00e1, e a\u00ed, a op\u00e7\u00e3o \u00e9 remo ou o maraj\u00e1.<br>O orvalho caia lentamente escorrendo pelas copas fechadas das \u00e1rvores e com ele o aroma agrad\u00e1vel que exala das flores e frutos deixando o ar leve e perfumado, como se pud\u00e9ssemos toc\u00e1-lo com as m\u00e3os num buqu\u00ea invis\u00edvel.<br>O acampamento, iluminado com a luz amarelada do candeeiro e da fogueira central, \u00e9 tomado por um clima am\u00e1vel e descontra\u00eddo. Todos atirados em suas redes ap\u00f3s o jantar, discorrendo sobre suas performances, vantagens e alguns inevit\u00e1veis exageros do dia numa esp\u00e9cie de reminisc\u00eancia dos acontecimentos da pescaria, tudo com muita alegria. S\u00e3o momentos como esses que nos levam a algumas reflex\u00f5es, enaltecem o esp\u00edrito e renova a nossa alma num momento singular e m\u00e1gico. Isso n\u00e3o tem pre\u00e7o!<br>Minha rede estava paralela ao do Juba, a do Alessandro e Guiga, ao fundo, a do Maguari, um negro magro, alto, bi\u00f3tipo fora dos padr\u00f5es regionais, lembrando um masai das plan\u00edcies do Seringeti, talvez seus ancestrais. O apelido, certamente, uma alus\u00e3o ao p\u00e1ssaro pernalta da Amaz\u00f4nia (Ciconia maguari), que vive nos grande lagos da floresta. N\u00e3o tinha o h\u00e1bito de andar cal\u00e7ado e seus p\u00e9s enormes, apresentavam-se com os dedos abertos e esborrachados. Nascido e criado por aquelas plagas vivia da ca\u00e7a, pesca e do pequeno ro\u00e7ado de subsist\u00eancia. O conhecemos de uma viagem anterior, no entanto, estava nos acompanhando pela primeira vez. Caboclo matreiro de conversa f\u00e1cil, gaiato e brincalh\u00e3o, mas sem perder a candura e a simplicidade do caboclo amaz\u00f4nico, com suas crendices e supersti\u00e7\u00f5es. Gostava de vangloriar-se dos conhecimentos que tinha da regi\u00e3o, o que era fato not\u00f3rio, mas exagerava nos causos. Era o nosso guia.<br>Enquanto convers\u00e1vamos estendidos na rede, Maguari preparava duas fogueiras, uma ao fundo do acampamento no sentido da mata e outra na lateral, na boca de uma vereda que tamb\u00e9m rumava ao interior da floresta. Fingimos n\u00e3o entender a situa\u00e7\u00e3o embora j\u00e1 tiv\u00e9ssemos usado a estrat\u00e9gia em outras oportunidades, sempre que acampados em \u00e1reas de floresta densa.<br>\u2014O que tu vais fazer a\u00ed Maguari?\u2014inquiriu-o um dos meus filhos.<br>\u2014Faz\u00ea fogo mode as on\u00e7as num cheg\u00e1!<br>\u2014Tu sossega, aqui n\u00e3o tem on\u00e7a!\u2014provocou o Juba.<br>\u2014Num tem?! Aqui tem delas que carrega um boi no espinha\u00e7o! Dias atr\u00e1is, l\u00e1 pr\u00e1s banda do Juriti mataram uma de mais de treis bra\u00e7a. Da ponta da venta int\u00e9 o rabo. A bicha era grande! Morreu na fuma\u00e7a do tiro adespois de cort\u00e1 dois cachorro no dente.<br>Agora era s\u00f3 dar trela pro caboclo pr\u00e1 conversa espich\u00e1.<br>\u2014Quem foi que matou essa on\u00e7a?\u2014Alessandro come\u00e7ava a animar o mateiro.<br>\u2014Si\u00f4, foi Z\u00e9 Jurupoca, um cumpadi meu, cabra ca\u00e7ad\u00f4 di on\u00e7a e dos b\u00e3o! A danada morreu com a cabe\u00e7a do porco entalada na goela!<br>\u2014Espera a\u00ed Maguari! Tu n\u00e3o est\u00e1s querendo dizer que a on\u00e7a engoliu o porco todo!<br>\u2014Sim sinh\u00f4! S\u00f3 n\u00e3o engoliu todo mode os cachorros que acuaram e cumpadi Z\u00e9 Juropoca chegou na hora.<br>O riso foi geral, de forma estrondosa e espalhafatosa.<br>\u2014Maguari, on\u00e7a n\u00e3o engole a presa inteira. Ela esquarteja o animal e vai engolindo aos peda\u00e7os. A sucuruj\u00fa \u00e9 quem engole de uma s\u00f3 vez!<br>Alessandro e o Guiga tentavam esclarecer incoer\u00eancia de comportamento do felino sem sucesso.<br>\u2014\u00c9 que oc\u00eais num conhece os bicho daqui! S\u00e3o tudo sabida! Quando num d\u00e1 tempo de rasg\u00e1 a carne ela engole inteiro!\u2014argumentava sem aparentar nenhuma sujei\u00e7\u00e3o.<br>As duas fogueiras estavam prontas. Os toros de lenha iriam arder durante toda a noite segundo a previs\u00e3o do guia que agora se aconchegava \u00e0 rede.<br>O Juba o atentou dizendo que as fogueiras iriam servir s\u00f3 para atrair a surucucu (Lachesis muta), a tem\u00edvel v\u00edbora amaz\u00f4nica.<br>\u2014Num tem pobrema n\u00e3o! Se ela chegar aqui acaba pulando no fogo e morre tosquiadinha, tosquiadinha. Uma veis tava eu, Chico Chaga e&#8230;.. \u2014l\u00e1 vinha outro causo desses pr\u00e1 n\u00e3o perder o fio de meada. Suas hist\u00f3rias flu\u00edam f\u00e1cil do seu imagin\u00e1rio aproveitando sempre as deixas de qualquer um de n\u00f3s.<br>\u2014Ei Maguari, agora chega. Vamos dormir um pouco!<br>A noite foi tranq\u00fcila, o sono profundo nos pegou de forma inevit\u00e1vel. Foi eu quem primeiro acordou. Dei uma volta pelo acampamento e vi as duas fogueiras do Maguari apagadas, apenas as cinzas ainda quentes. Apesar da penumbra no interior da floresta notava-se a n\u00e9voa branca que subia lentamente da superf\u00edcie das \u00e1guas do rio Car\u00fa, refletindo timidamente a luz do sol. Enquanto preparava o caf\u00e9, um bando de araras pousou no alto de um bacurizeiro, enraizado majestosamente ao lado do acampamento, num alarido t\u00e3o estridente que ecoava h\u00e1 l\u00e9guas pela mata, como se estivessem querendo, propositadamente, chamar nossa aten\u00e7\u00e3o. Maguari tinha acabado de levantar-se. Corri ao interior do acampamento para despertar os meninos. N\u00e3o podiam perder a aquele espet\u00e1culo da natureza. N\u00e3o era a primeira vez que est\u00e1vamos sendo privilegiados com t\u00e3o rara contempla\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o \u00e9 sempre que se tem a chance de se interagir com cen\u00e1rio dessa magnitude e precis\u00e1vamos aproveitar. A visibilidade ainda era pouca, mas pod\u00edamos divisar seus movimentos e suas cores brilhantes. Ficaram naquela folia por alguns minutos e numa revoada sincronizada cruzaram o rio at\u00e9 desaparecerem pelas copas das \u00e1rvores.<br>A higiene pessoal faz\u00edamos ali mesmo no rio. Uma pequena praia de areia muito branca nos deixava \u00e0 vontade. Reunimo-nos para caf\u00e9 que deveria ser avexado, pois a programa\u00e7\u00e3o era aproveitar bem o dia. O semblante de todos sugeria que o descanso da noite fora sereno e reparador. Alessandro, Juba e Guiga estavam impacientes e com enorme expectativa para a pescaria visto que, como combinado, o guia iria nos levar no rio Juriti, local de grandes surubins, garantia. De p\u00e9, com uma caneca de caf\u00e9 com leite numa m\u00e3o e biscoitos na outra, puxou conversa.<br>\u2014Seu dot\u00f4 drumiu bem?<br>A pergunta me parecia meio ir\u00f4nica envolvida em um pouco de deboche. O negro queria nos provocar.<br>Dei uma inspirada profunda de ar puro e respondi calmamente:<br>\u2014Dormi nada Maguari! Fiquei a noite toda ati\u00e7ando a lenha das fogueiras ali fora.<br>\u2014As fuguera apagaram?<br>\u2014N\u00e3o apagaram porque eu n\u00e3o deixava. J\u00e1 estava dormindo quando escutei um barulho que parecia um assopro, fuuuuuu &#8230;..fuuuuu. Quando eu olhava tava l\u00e1 o fogo enfraquecido, quase apagado. Levantava ati\u00e7ava a fogueira outra vez e mal deitava na rede escutava aquela zuada: fuuuuu&#8230;.fuuuuu, era o assopro novamente e l\u00e1 ia eu chuchar o fogo e assim foi at\u00e9 amanhecer o dia.<br>Os meninos come\u00e7aram a rir dissimuladamente para n\u00e3o desviar a aten\u00e7\u00e3o do caboclo, muito interessado na conversa.<br>\u2014O sinh\u00f4 num arrepar\u00f4 o que era?<br>\u2014Reparei sim, mas s\u00f3 de madrugada. J\u00e1 estava cansado de deitar e levantar, deitar e levantar. Agarrei a lanterna e foquei a luz nas moitas, levei um baita susto com o que vi.<br>Nessas alturas o negro j\u00e1 n\u00e3o ag\u00fcentava mais de curiosidade.<br>\u2014\u00d3xente! E era o que?<br>\u2014Tu nem vais acreditar! Duas on\u00e7as acoitadas atr\u00e1s das \u00e1rvores, assoprando o fogo para apagar e nos atacar. Eu acendia, elas apagavam, acendia e elas apagavam e isso foi noite afora!<br>Os meninos n\u00e3o se contiveram e ca\u00edram numa gargalhada deslavada quase rolando pelo ch\u00e3o. Parecia que t\u00ednhamos pregado uma pe\u00e7a no caboclo. Mas n\u00e3o perdeu a compostura. Olhou para os meninos que continuavam a rir no tom de esc\u00e1rnio e muito s\u00e9rio retomou a parte da conversa:<br>\u2014\u00d3xente e foi mesmo? Eu num falei! Eu num falei! As bicha daqui tem muita sabidoria. Sabida que parece gente! Uma veiz, eu, mais cumpadi Z\u00e9 Pitomba, fumo numa ca\u00e7ada e uma on\u00e7a&#8230;<br>\u2014T\u00e1 bom Maguari, t\u00e1 bom! Vamos embora botar as tralhas no barco que o sol est\u00e1 levantando, deixa essa hist\u00f3ria pr\u00e1 outra hora.<br>L\u00e1 tava Maguari preparando r\u00e9plica com mais um causo de on\u00e7a que assoprava fogo s\u00f3 para n\u00e3o perder a pose. Fora interrompido por um dos meninos, mas arrematou:<br>\u2014\u00d3ia s\u00f3 seu Roberto, t\u00e3o pensando que \u00e9 mentira! Esses minino num sabe de nada! Num \u00e9 naum?<br>\u2014\u00c9 Maguari, \u00e9! Arrematei o assunto caminhando para o barco acompanhando os meninos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A noite veio repentina, como um v\u00e9u escuro estendendo-se sobre a imensid\u00e3o da floresta. Seu teto sem estrelas, sem luz ,por mais paradoxo que pare\u00e7a, traz uma indescrit\u00edvel sensa\u00e7\u00e3o de calma e uma incr\u00edvel paz de esp\u00edrito. O acampamento armado \u00e0 beira do rio Car\u00fa, extremo oeste da Amaz\u00f4nia Maranhense, permitia ouvir o incessante borbulhar [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"sfsi_plus_gutenberg_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_show_text_before_share":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_type":"","sfsi_plus_gutenberg_icon_alignemt":"","sfsi_plus_gutenburg_max_per_row":"","footnotes":""},"categories":[162],"tags":[],"class_list":["post-993","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-causos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/993","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=993"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/993\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":994,"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/993\/revisions\/994"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=993"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=993"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=993"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}