{"id":991,"date":"2007-12-04T20:09:46","date_gmt":"2007-12-04T23:09:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=991"},"modified":"2021-10-01T09:52:36","modified_gmt":"2021-10-01T12:52:36","slug":"pareia-e-joao-teimoso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/pareia-e-joao-teimoso\/","title":{"rendered":"Pareia e Jo\u00e3o Teimoso"},"content":{"rendered":"\n<p>A pescaria era um objetivo antigo, mas fora planejada \u00e0s carreiras. Fomos acampar no rio Vermelho, no Par\u00e1, pr\u00f3ximo a serra dos Caraj\u00e1s na Amaz\u00f4nia paraense. T\u00ednhamos boas refer\u00eancias da piscosidade do rio, todavia, nenhuma indica\u00e7\u00e3o da estrutura para acampamento. Chegamos a Eldorado dos Caraj\u00e1s e em seguida, na companhia do Walter, morador local e acostumado a pescar na regi\u00e3o e que se prop\u00f4s a nos acompanhar na aventura, fomos para uma fazenda cortada pelo rio. No caminho, meio apreensivos perguntamos ao Walter se n\u00e3o tinha nenhum problema em pescar em terras alheias. Respondeu-nos que era amigo do propriet\u00e1rio e n\u00e3o tinha nenhuma restri\u00e7\u00e3o apesar de n\u00e3o saber exatamente o local que nos levaria para acampar. Depois de algum tempo, j\u00e1 na fazenda, conseguimos divisar ao longe um rancho aparentemente desocupado. Foi uma d\u00e1diva. Estava abandonado. Sua estrutura prec\u00e1ria, mas aparentemente bem seguro na sua cobertura de palhas de palmeira. Para n\u00f3s estava \u00f3timo! Num r\u00e1pido mutir\u00e3o conseguimos fazer uma limpeza no rancho que estava servindo de abrigo para o gado, e descarregar a tralha toda. Acendemos o fogo e improvisamos algumas prateleiras e ganchos para redes e o local ficou perfeitamente adequado \u00e0s nossas modestas exig\u00eancias. Fizemos uma r\u00e1pida merenda e fomos pescar.<br>&nbsp;No dia seguinte de manh\u00e3, est\u00e1vamos ainda no rancho preparando a nossa sa\u00edda para o rio, quando recebemos a visita de Sr. Tavico e seu vaqueiro. Chegaram montados em dois burros baios ofegantes e inquietos. Apearam e entraram no rancho. O Walter nos apresentou ao propriet\u00e1rio da fazenda. Sem isso n\u00e3o seria poss\u00edvel diferenciar o fazendeiro do empregado. Estatura mediana, encorpado, cabelos grisalhos dos seus cinq\u00fcenta e tantos anos e semblante bonach\u00e3o. Vestes rasgadas e um chap\u00e9u de abas largas e j\u00e1 bem surrado na cabe\u00e7a, foi logo se enturmando. Moravam s\u00f3s na sede da fazenda cuidando das cria\u00e7\u00f5es e dos afazeres dom\u00e9sticos. Censurou-nos por n\u00e3o termos lhe procurado para indicar um local mais confort\u00e1vel para ficarmos, pois na fazenda tinha v\u00e1rios ranchos em melhores condi\u00e7\u00f5es. Preferimos ficar ali mesmo. Alegre, fala r\u00e1pida e quase ininterrupta, nos envolveu de tal forma que parecia nosso antigo conhecido. Alessandro, Juba e Guiga se entusiasmaram com a figura \u00edmpar e come\u00e7aram a especular sobre a piscosidade do rio Vermelho. Alertados que fomos pelo Walter, t\u00ednhamos levado umas garrafas de cacha\u00e7a 51. Era a preferida deles e antes de nossa partida, fez quest\u00e3o de nos mostrar a sua torre ao ar livre, com mais de trezentas garrafas de cacha\u00e7a vazias simetricamente empilhadas, que guardava como suvenires. Era o que ele chamava de est\u00e1uta, referindo-se ao que julgava ser parecido com uma est\u00e1tua.<br>&nbsp;Era ainda de manh\u00e3, mas o Guiga arriscou:<br>\u2014Seu Tavico, n\u00e3o quer tomar uma 51 pr\u00e1 rebater o calor?<br>\u2014Tu t\u00e1 brincando! Tem a\u00ed a mardita?<br>\u2014Temos!<br>&nbsp;Incontinente, com os olhos brilhando, pegou o copo e serviu-se. Seu vaqueiro o seguiu numa dose generosa, deixando antes atirado ao canto, o gole do santo.<br>\u2014Vix\u00ea! Essa \u00e9 da boa!\u2014passou o dorso da m\u00e3o calejada pela boca enxugando os l\u00e1bios, cuspiu do lado, ficando aparentemente mais animado, e prosseguiu:<br>\u2014Pareia\u2014\u00e9 o pronome que usa para tratar todas as pessoas, sem nenhuma exce\u00e7\u00e3o, deixando claro que pod\u00edamos tamb\u00e9m, cham\u00e1-lo de Pareia\u2014isso aqui tem peixe de toda marca!<br>&nbsp;E a\u00ed discorreu sobre os esp\u00e9cimes e seus tamanhos. Revelou-nos a exist\u00eancia de uma lagoa, dentro de suas terras, que na \u00e9poca da mon\u00e7\u00f5es entram centenas de peixes de v\u00e1rias esp\u00e9cies, incluindo o pirosca (pirarucu) que ficam aprisionados at\u00e9 o ano seguinte. Ele pro\u00edbe terminantemente a pesca predat\u00f3ria ou sem sua autoriza\u00e7\u00e3o. Quer preserv\u00e1-la! Todavia, precisou colocar um vigia para assegurar que suas ordens fossem cumpridas.<br>\u2014Pareia e a\u00ed, \u2014prosseguiu ele \u2014botei um vigia na lagoa pra arrepar\u00e1 os peixes, mas o infeliz come\u00e7ou a vender os piroscas e tive que mand\u00e1 o cabra safado embora!<br>\u2014Como \u00e9 que ele fazia com os piroscas? \u2014perguntou Alessandro enquanto ajeitava o fogo no ch\u00e3o.<br>\u2014Pareia, o f\u00e9la da mae deixava os pescad\u00f4 peg\u00e1 os pirosca de mais de cem quilos na rede, por dez ou vinte reaus.<br>&nbsp;N\u00e3o tendo alternativas para evitar a pesca desautorizada e predat\u00f3ria, ficou ele pr\u00f3prio mais o seu vaqueiro, revezando a vigil\u00e2ncia. Mas era complicado. A lida com o gado durante o dia os deixava exaustos al\u00e9m do que, tinham que cuidar da pr\u00f3pria b\u00f3ia, e a noite os invasores aproveitavam \u00e0 falha na seguran\u00e7a. Preocupado, n\u00e3o se fez de arrogado, acompanhado do vaqueiro, foi at\u00e9 a beira do lago, no local de melhor acesso onde era mais comum \u00e0 presen\u00e7a de pescadores, e juntos, fizeram uns amontoados de terra, simulando umas sepulturas de cova rasa. A garrafa de cacha\u00e7a e o copo ficaram sobre um tronco cortado que servia ao prop\u00f3sito de uma pequena mesa, desde o primeiro gole. Calmamente serviu-se de outra dose, estalou a l\u00edngua e acrescentou:<br>\u2014Essa t\u00e1 descendo macio! \u2014como se nunca tivesse tomado uma cacha\u00e7a. O vaqueiro sempre o acompanhava.<br>\u2014Pareia\u2014continuou ele arrumando o chap\u00e9u de abas largas com a borda suada\u2014como eu dizia, fizemos uns tumus (t\u00famulos) de terra, bem ajeitado, com uma cruiz de madeira arrumadinha. Na boquinha da noite n\u00f3is fumo pra l\u00e1 e acendemu umas velas encima das covas. Aquilo ficou bonito Pareia! De longe parecia um monte de z\u00f3io de jacar\u00e9 encandeado, tudo alumiadinho!<br>&nbsp;Ficaram de tocaia e aguardaram um pouco, torcendo para que naquela noite, os ladr\u00f5es de peixes retornassem.<br>\u2013Pareia n\u00e3o demorou muito, n\u00f3is escutamu uma zuada de gente, eram tr\u00eas safados chegando de mansinho. Quando estavam preparando as tarrafas, n\u00f3is chegamu de veiz.<br>\u2014T\u00e3o dando uma pescadinha a\u00ed si\u00f4?\u2014perguntou o fazendeiro abordando os invasores de forma intimidadora.<br>\u2014\u00c9 tamu tentando aqui\u2014respondeu um deles assustado com o flagrante.<br>\u2014E pediram pr\u00e1 quem?<br>\u2014Pidimu pr\u00e1 ningu\u00e9m naum sinh\u00f4! \u2014falou aperreado o que parecia ser o chefe.<br>\u2014Isso aqui tem dono, e \u00e9 improibido entr\u00e1 aqui pr\u00e1 pesc\u00e1!<br>\u2014N\u00f3is num sabia naum sinh\u00f4!<br>&nbsp;A conversa come\u00e7ava a ficar meio tensa e os pescadores clandestinos constrangidos, procuraram amenizar a situa\u00e7\u00e3o. Tinham visto os tumus j\u00e1 na chegada, e um deles querendo desviar o assunto na tentativa de acalmar a situa\u00e7\u00e3o, perguntou:<br>\u2014\u00c9 de crist\u00e3o essas c\u00f3va a\u00ed si\u00f4?<br>\u2014\u00c9 sim sinh\u00f4! \u2014respondeu de pronto o fazendeiro.<br>\u2014E quem s\u00e3o os finados?<br>\u2014Jo\u00e3o teimoso e Z\u00e9 teimoso! \u2014Pareai era dono da situa\u00e7\u00e3o e tinha a resposta na ponta da l\u00edngua.<br>\u2014Jo\u00e3o teimoso e Z\u00e9 teimoso?<br>\u2014Sim sinh\u00f4!<br>\u2014Nunca vimu fal\u00e1! Cuma \u00e9 que faleceram os finadu? Mode que? \u2014arriscou o que estava com a tarrafa na m\u00e3o.<br>\u2014Di teimosia, di teimosia!\u2014retrucou Pareia, batendo de leve com um fac\u00e3o no cano na bota, de forma intimidante.<br>\u2014Andavam por aqui pescando e eu sempre aconceiando, aconceiando, dizendo que n\u00e3o podia pesc\u00e1. Eram muito teimoso e \u00f3ia a\u00ed o resultado. Acabaram desse jeito a\u00ed!\u2014dando a entender que fora o autor da trag\u00e9dia simulada.<br>&nbsp;Os pescadores assustados com a revela\u00e7\u00e3o recolheram as redes e tarrafas botaram num saco fizeram um sinal da cruz e desapareceram pela mata.<br>\u2014Nunca mais apareceram por aqui, Pareia! Foi um santo rem\u00e9dio!\u2014completou ele sorridente.<br>N\u00f3s nos divert\u00edamos \u00e0 bessa com a narrativa do fazendeiro, com seu jeit\u00e3o simpl\u00f3rio e os trejeitos de caboclo acostumado \u00e0 vida dura do campo. Durante todo o tempo n\u00e3o sentou um minuto sequer. A garrafa de argua ardente estava abaixo do meio, mas n\u00e3o demonstravam a m\u00ednima altera\u00e7\u00e3o. Tomaram a saideira e quando estavam retornando \u00e0 lida do gado, o Alessandro o interpelou:<br>\u2014Pareia, tem alguma \u00e1gua pra beber por aqui por perto?<br>\u2014Tem e muita !\u2014respondeu j\u00e1 sobre a montaria.<br>\u2014\u00c1gua boa? \u2013insistiu o Alessandro.<br>\u2014Pareia, deve s\u00ea das boas, pois o gado b\u00e9be todo o dia e v\u00e9ve gordo! Naun reclamam n\u00e3o!<br>&nbsp;Ca\u00edmos na risada!<br>Quando fomos nos certificar da qualidade da \u00e1gua no local indicado pelo \u00d3ta o vaqueiro, ficamos assustados. A \u00e1gua era estagnada, barrenta cor de chocolate, totalmente inadequada para consumo humano. Mas nos divert\u00edamos muito lembrando da frase: O gado b\u00e9be e v\u00e9ve gordo!<br>&nbsp;No outro dia de manh\u00e3 fomos conhecer a lagoa n\u00e3o muito distante do rancho, na companhia do Pareia. Ficamos encantados! Absolutamente majestosa, com sua floresta ciliar, a fauna abundante e todo seu ecossistema totalmente preservado, diferente do cen\u00e1rio aterrador que t\u00ednhamos presenciado durante a viagem, com grandes \u00e1reas de queimadas e derrubadas criminosas. Para todo o lado que se olhasse, divisava-se ao longe, dezenas de aspirais fumacentas que denunciavam a devasta\u00e7\u00e3o sem nenhum manejo ou controle ambiental. As serrarias se proliferam tanto quanto as carvoarias por toda a regi\u00e3o. O pressionamos de forma enf\u00e1tica para manter a sua posi\u00e7\u00e3o na preserva\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, principalmente quanto \u00e0 pesca predat\u00f3ria. Sentimos que ficou entusiasmado com os elogios \u00e0 sua postura. Lamentamos muito n\u00e3o termos armado acampamento ao lado da lagoa. At\u00e9 tentamos viabilizar a mudan\u00e7a, contudo n\u00e3o est\u00e1vamos preparados. Concordamos que nas pr\u00f3ximas viagens \u00e0 fazenda, ficar\u00edamos arranchados na beira daquele para\u00edso.<br>&nbsp;Nos dias que se seguiram, volta em meia os coment\u00e1rios focavam a lagoa do Pareia. Falou-se tanto que, na nossa despedia o fazendeiro estendeu o bra\u00e7o amistosamente sobre meus ombros e disse:<br>\u2014Pareia, si voc\u00eas gostaram tanto dessa lagoa e est\u00e3o t\u00e3o preocupado com ela, v\u00f4 d\u00e1 ela pr\u00e1 voc\u00eas! E de paper passado!<br>\u2014Isso \u00e9 uma brincadeira Pareia?<br>\u2014\u00d4 seu Roberto, eu num s\u00f4 homi de brinc\u00e1 cum coisa s\u00e9ria! Vai fic\u00e1 aqui do jeitinho que t\u00e1. S\u00f3 quem vai pesc\u00e1 aqui s\u00e3o voc\u00eas!<br>&nbsp;J\u00e1 voltamos \u00e0 regi\u00e3o dos Caraj\u00e1s por duas vezes e ficamos sempre acampados ao lado da lagoa que continua intacta, aparentemente exclusiva para nosso deleite. A \u00fanica coisa lhe traz contrariedade e discord\u00e2ncia, mas de forma n\u00e3o muito radical, \u00e9 o fato de soltarmos a maioria dos peixes depois de fisgados. Mas aos poucos nos parece estar cedendo aos nossos argumentos. Afinal sempre que deseja comer um peixe na companhia do seu vaqueiro basta dar uma s\u00f3 tarrafada na lagoa.<br>\u2014\u00c9 Pareia pelo menos do jeito que voc\u00eas pescam us peixe naum v\u00e3o acab\u00e1 nunca!<br>&nbsp;Teorizou corretamente numa de nossas prozas.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pescaria era um objetivo antigo, mas fora planejada \u00e0s carreiras. Fomos acampar no rio Vermelho, no Par\u00e1, pr\u00f3ximo a serra dos Caraj\u00e1s na Amaz\u00f4nia paraense. T\u00ednhamos boas refer\u00eancias da piscosidade do rio, todavia, nenhuma indica\u00e7\u00e3o da estrutura para acampamento. 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