{"id":989,"date":"2007-09-05T21:06:02","date_gmt":"2007-09-06T21:06:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=989"},"modified":"2021-10-01T09:31:41","modified_gmt":"2021-10-01T12:31:41","slug":"ze-rosa-e-a-cacada-de-paca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/ze-rosa-e-a-cacada-de-paca\/","title":{"rendered":"Z\u00e9 Rosa e a ca\u00e7ada de Paca"},"content":{"rendered":"\n<p>Est\u00e1vamos, eu o Alessandro, o Juba e o Guiga, acampados \u00e0s margens do rio Car\u00fa, na reserva biol\u00f3gica do Gurupi, extremo oeste da Amaz\u00f4nia Maranhense, preparados para uma perman\u00eancia de uns dez dias na regi\u00e3o. A viagem, de dois dias navegando os rios Pindar\u00e9-Mirim e Car\u00fa, apesar de cansativa, tinha sido simplesmente espetacular. Era s\u00f3 o in\u00edcio de uma grande aventura. O lugar \u00e9 maravilhoso e a exuber\u00e2ncia da floresta amaz\u00f4nica permite a rara possibilidade da perfeita intera\u00e7\u00e3o com a natureza. Apesar de local ainda deserto e extremamente adverso, t\u00ednhamos como vizinhos mais pr\u00f3ximos os \u00edndios Aw\u00e1\/Guaj\u00e1 da aldeia Cayu\u00e1ua, mas receb\u00edamos esporadicamente alguns nativos da regi\u00e3o que sem nenhum esfor\u00e7o subiam o rio por v\u00e1rias horas a remo para nos fazer uma visita. Na sua maioria, vinha por curiosidade ou para obter algum material de pesca, como anz\u00f3is e linhas, tomar um caf\u00e9, tudo muito raro naquelas bandas.<\/p>\n\n\n\n<p>Certo dia, est\u00e1vamos todos no acampamento num daqueles momentos pregui\u00e7osos e relaxantes, quando um ribeirinho j\u00e1 nosso conhecido, desembarca com algumas melancias para nos presentear e na sua companhia um senhor de postura simpl\u00f3ria t\u00edpica do sertanejo da regi\u00e3o. Foi nos apresentado como Z\u00e9 Rosa, conhecido e destemido ca\u00e7ador da regi\u00e3o. Nos cumprimentamo-nos e em seguida oferecemos uma bebida, um vinho de catuaba, que costumamos levar apenas para essas circunst\u00e2ncias. Conversamos algum tempo sempre falando sobre a regi\u00e3o. Parecia muito \u00e0 vontade entre n\u00f3s e sem muita cerim\u00f4nia, ap\u00f3s o segundo gole, come\u00e7ou a contar alguns causos e, entre tantos, nos contou o seguinte:<\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o, um outro grande ca\u00e7ador, cuja alcunha n\u00e3o deixava d\u00favidas: Z\u00e9 paca, estava pela primeira vez em toda a sua vida, enfrentando dificuldades na ca\u00e7ada de uma determinada paca. Seus c\u00e3es ex\u00edmios ca\u00e7adores estavam o decepcionado. Z\u00e9 paca os levava no carreiro da bicha manhosa, conseguiam localiz\u00e1-la, persegui-la mas n\u00e3o a alcan\u00e7avam. Era muito r\u00e1pida na carreira pelo mato e, p\u00f3s alguns minutos de persegui\u00e7\u00e3o, pareciam junto ao seu dono ofegantes e cortados por cip\u00f3s, quase suplicando a desist\u00eancia da infrut\u00edfera miss\u00e3o. As tentativas foram muitas e por v\u00e1rios dias seguidos. A paca, a essa altura famosa pelas redondezas, era muito r\u00e1pida e sagaz, como um corisco zig zagueando pela vereda. Z\u00e9 paca sentiu-se profundamente ferido no seu amor pr\u00f3prio e at\u00e9 um pouco humilhado. Afinal a fama de paqueiros dos seus c\u00e3es era not\u00f3ria e percorria toda a reserva. Inconformado, pressionado, mas relutante, atendeu aos conselhos dos amigos. Um pouco constrangido, procurou o Z\u00e9 Rosa, o nosso visitante. Z\u00e9 Rosa dispensava apresenta\u00e7\u00f5es! Seus dois c\u00e3es eram mestres na persegui\u00e7\u00e3o de ca\u00e7as. N\u00e3o havia nenhuma animosidade entre eles. Eram muito amigos e at\u00e9 compadres. Mas que ficava um clima desagrad\u00e1vel, isso ficava! Mas Z\u00e9 Paca foi logo ao assunto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cumpadi Z\u00e9 Rosa\u2026 \u2014 e narrou detalhadamente a hist\u00f3ria da paca que de t\u00e3o astuciosa e veloz nunca era alcan\u00e7ada pelos seus c\u00e3es. Z\u00e9 Rosa escutou atentamente, soltou uma baforada do seu cigarro de fumo bruto, passou a m\u00e3o carinhosamente sobre a cabe\u00e7a de um de seus c\u00e3es e com um pouco de desd\u00e9m e emp\u00e1fia, respondeu decisivo:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vamu atr\u00e1is dessa bicha agora!<\/p>\n\n\n\n<p>Com um estalar de dedos chamou Carrasco e Sult\u00e3o. Os dois c\u00e3es magros, todavia, ca\u00e7adores natos, at\u00e9 ent\u00e3o cabisbaixos sonolentos, entenderam a mensagem com o balan\u00e7ar fren\u00e9tico dos rabos e imediatamente tornaram-se altivos e inquietos. Rumaram todos para o local da mata onde vivia a tal paca. No caminho, Z\u00e9 Rosa reafirmava as virtudes dos seus c\u00e3es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cumpadi Z\u00e9 Paca, manda cumadi. Nonata bot\u00e1 a panela nu fogo que rapidinho vamu cum\u00ea uma paca. Se Carrasco e Sult\u00e3o num peg\u00e1 a bicha, corto os bagos dos dois!<\/p>\n\n\n\n<p>Chegando ao nicho da desafeta e, alertados pela ansiedade dos c\u00e3es, Z\u00e9 Rosa com os gritos de est\u00edmulos soltou-os. A carreira foi feia e o pipocar dos galhos, paus e cip\u00f3s era ouvido de longe. Ficaram parados numa pequena clareira e sentados sobre os calcanhares e relaxaram. Os latidos que anunciavam a busca, repentinamente passou para o de localiza\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o. (os latidos dos c\u00e3es s\u00e3o diferentes para cada situa\u00e7\u00e3o nos explicou ele). Z\u00e9 Rosa, orgulhoso anunciou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 L\u00e1 vem a bicha compadre si aprepare!<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho e os latidos aproximavam-se cada vez mais. Dito e feito, a paca passou a menos de tr\u00eas metros de onde estavam. Mas muito \u00e0 frente dos c\u00e3es. Naquela velocidade era imposs\u00edvel Carrasco e Sult\u00e3o alcan\u00e7arem-na.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3xente! Qu\u00ea diabo \u00e9 isso? Esbravejou Z\u00e9 Rosa decepcionado. \u2014 e l\u00e1 vinha ela novamente correndo em c\u00edrculos perseguida pelos c\u00e3es. Quase deitados ao ch\u00e3o, para tentar uma vis\u00e3o mais ampla entre as arvores e arbustos, puderam divisar sem nenhuma dificuldade uma cena inusitada e inacredit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vi com esses z\u00f3io que a terra h\u00e1 de cum\u00ea! \u2014 assegurou Z\u00e9 paca empolgado prosseguindo com o relato.<\/p>\n\n\n\n<p>Na carreira, a paca sempre que se via amea\u00e7ada pelo Carrasco e Sult\u00e3o, j\u00e1 muito cansada, virava de costas num giro horizontal de 180\u00ba e continuava a correr sempre imprimindo mais velocidade. Ela tinha quatro pernas sobressalentes nas costas. Enquanto quatro pernas corriam, quatro estavam descansando. Essa foi a grande descoberta dos dois compadres. A princ\u00edpio ficaram incr\u00e9dulos e indignados. Mas Z\u00e9 Rosa n\u00e3o se deixou abater. Chamou de volta Carrasco e Sult\u00e3o que continuavam na persegui\u00e7\u00e3o. Os dois c\u00e3es ofegantes com a l\u00edngua para fora e com os corpos feridos no triscar de galhos e cip\u00f3s ficaram em posi\u00e7\u00e3o e deitaram-se aos p\u00e9s do seu dono. Z\u00e9 Rosa n\u00e3o titubeou. Sacou de seu fac\u00e3o rabo de galo e rapidamente cortou duas embiras de titica na \u00e1rvore mais pr\u00f3xima e testou sua resist\u00eancia com uma lapada num tronco ao ch\u00e3o e com a ajuda do compadre Z\u00e9 paca, amarrou Carrasco e Sult\u00e3o espinha\u00e7o com espinha\u00e7o. Um pr\u00e1 baixo outro pra riba, quatro patas no ch\u00e3o e quatro para cima.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora quero ver a fia de uma \u00e9gua escap\u00e1! \u2014 deu voz de comando e l\u00e1 se foram os dois c\u00e3es atrelados meio desequilibrados, por\u00e9m rapidamente, adaptaram-se \u00e0 criatividade do ca\u00e7ador e tomaram rumo mata adentro. Retomaram a ca\u00e7ada. Carrasco carregando Sult\u00e3o de barriga para cima e pernas para o ar. N\u00e3o demorou muito e desentocaram a paca. Z\u00e9 Paca e Z\u00e9 Rosa estavam em posi\u00e7\u00e3o de f\u00e1cil visualiza\u00e7\u00e3o e puderam notar perfeitamente quando a paca em velocidade virava revezando as pernas e desesperada percebia que os dois c\u00e3es tamb\u00e9m o faziam num sincronismo perfeito. N\u00e3o deu outra! A carrera foi curta. Antes que a paca desse o seu terceiro giro sobre si mesma, estava nas garras de Carrasco e Sult\u00e3o. Juba o interpelou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Seu Z\u00e9 Rosa, como \u00e9 que os cachorros viravam no revezamento?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Sei naum sinh\u00f4, mas que o desmantelo foi grande foi!<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o t\u00ednhamos retomado o f\u00f4lego do acesso de risos. N\u00e3o pudemos evitar. Z\u00e9 Rosa soltou a \u00faltima baforada do seu porronca, cuspiu de lado e muito s\u00e9rio nos perguntou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oceis num t\u00e3o achando que \u00e9 mentira minha n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Qu\u00ea isso seu Z\u00e9 Rosa! Claro que acreditamos. \u00c9 que a hist\u00f3ria, al\u00e9m de verdadeira \u00e9 muito divertida!<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de nossa total recupera\u00e7\u00e3o, Z\u00e9 Rosa de in\u00edcio a outra hist\u00f3ria hilariante, mas essa fica para a pr\u00f3xima vez. At\u00e9 hoje, passado um bom tempo, rimos muito quando um de n\u00f3s lembra-se do Z\u00e9 Rosa e seus causos verdadeiros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Est\u00e1vamos, eu o Alessandro, o Juba e o Guiga, acampados \u00e0s margens do rio Car\u00fa, na reserva biol\u00f3gica do Gurupi, extremo oeste da Amaz\u00f4nia Maranhense, preparados para uma perman\u00eancia de uns dez dias na regi\u00e3o. A viagem, de dois dias navegando os rios Pindar\u00e9-Mirim e Car\u00fa, apesar de cansativa, tinha sido simplesmente espetacular. 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