{"id":987,"date":"2007-08-23T10:33:26","date_gmt":"2007-08-23T13:33:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=987"},"modified":"2021-10-01T09:22:07","modified_gmt":"2021-10-01T12:22:07","slug":"o-boto-cor-de-rosa-preto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/o-boto-cor-de-rosa-preto\/","title":{"rendered":"O Boto cor-de-Rosa, preto!"},"content":{"rendered":"\n<p>O Rio Curu\u00e1-Una \u00e9 represado na altura dos limites da cidade de Santar\u00e9m, no Par\u00e1, alguns quil\u00f4metros antes de desaguar no Amazonas, onde move as turbinas de uma hidroel\u00e9trica. Forma um lago imenso e extraordinariamente bonito e, alguns quil\u00f4metros abaixo, mant\u00e9m-se mais estreito e com exuberante mata ciliar. Est\u00e1vamos ali, pr\u00f3ximos a uma guarita da hidroel\u00e9trica, na margem do rio, onde aguard\u00e1vamos o Sr. Bernardo morador da regi\u00e3o e credenciado a nos levar a uma pescaria. N\u00e3o demorou muito, encostou com uma voadeira, emprestada que nos foi por um engenheiro da hidroel\u00e9trica, administrada pela CELPA, companhia hidroel\u00e9trica do Par\u00e1. Cumprimentamos-nos e seguimos rio abaixo nuns pesqueiros que s\u00f3 ele conhecia. As op\u00e7\u00f5es eram muitas, pac\u00fas, tambaquis, jaraquis, tucunar\u00e9s, matrinch\u00e3s, aruan\u00e3s, pirarucus e outros esp\u00e9cimes da regi\u00e3o amaz\u00f4nica. Pescamos o dia todo com bons resultados e, no final da tarde, voltamos ao ponto de encontro. Retornar\u00edamos as pescaria na segunda feira. Como a voadeira iria ficar ali mesmo na guarita, a pedido de seu propriet\u00e1rio, demos uma carona a ele at\u00e9 sua casa, n\u00e3o muito distante.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o dia, em meio a uma fisgada e outra, Sr. Bernardo contou-nos muitas hist\u00f3rias de suas andan\u00e7as. O dia terminou com nossa amizade selada com um convite para comer um pato no tucupi, em sua casa no dia seguinte, domingo, o que foi prontamente aceito, mesmo n\u00e3o sendo n\u00f3s, muito apreciadores de tal iguaria.<br>Ao nos despedirmos, reafirmou o convite:<br>\u2014Ent\u00e3o t\u00e1 combinado, Sr. Roberto. Amanh\u00e3 aqui em casa! Vou mand\u00e1 a mui\u00e9 faz\u00ea o pato.<br>\u2014T\u00e1 combinado Seu Bernardo. A que horas?<br>\u2014Das dez horas em diante o Sr. pode cheg\u00e1! Mas se quiser vir mais cedo tum\u00e9m pode.<\/p>\n\n\n\n<p>No domingo, na hora marcada estava eu l\u00e1. Sua moradia, humilde como as demais, ficava num pequeno povoado de no m\u00e1ximo umas dez casas esparsas \u00e0 beira do rio que, naquela \u00e9poca do ano, exibia suas praias de areias brancas. Em quase toda a sua extens\u00e3o, pod\u00edamos observar as crian\u00e7as brincando na \u00e1gua e algumas mulheres lavando roupas e utens\u00edlios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao ouvir o barulho do carro, veio sorridente e solicito nos receber. Tinha na boca, entre falhas, um dente de ouro que exibia com satisfa\u00e7\u00e3o, como uma das lembran\u00e7as de uma experi\u00eancia mal sucedida no garimpo de Serra Pelada. Outra lembran\u00e7a, que de certa forma tamb\u00e9m n\u00e3o evitava a exibi\u00e7\u00e3o, era uma enorme cicatriz na barriga proeminente. Durante a conversa, afastou um pouco a camisa desabotoada e sem esconder um pouco de ironia lembrou-se do ocorrido:<br>\u2014Isso aqui \u00e9 tra\u00e7o de faca. Triscou de banda no bucho! Na hora que eu ia mata o cab\u00f4co, a poli\u00e7a cheg\u00f4! Cabra de sorte aquele! \u2014vaticinou cobrindo o antigo ferimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi numa das muitas bebedeiras nos cabar\u00e9s de Marab\u00e1 nos tempos do garimpo. O seu preferido era o Recanto das Goianas. Bastavam algumas pepitas de ouro para sair da serra e buscar os encantos dos cabar\u00e9s de Marab\u00e1.<br>\u2014Era um raparigal bonito! Cheio de luzes e tapetes. As cadeiras eram estufadas, quando a gente sentava, chegava afund\u00e1 a bunda! Tinha umas brancona do sul, o drobo do meu tamanho. Certa vez, uma delas veio logo sentando no meu colo e os colegas come\u00e7aram a zombar. Fiquei desconfiado com tanta festa, mas a mu\u00e9, muito cherosa, come\u00e7ou com sali\u00eancia do meu lado, me beijando e se esfregando toda. Peguei logo naqueles peito branco e quando arriei a m\u00e3o pr\u00e1 cariciar a priquita, ela deu um pulo e desatou a rir com os colegas. O fela da mae era homi! A zanga foi tanta que acabei dando um b\u00f3gue nas venta do macho de m\u00e3o aberta. A\u00ed n\u00e3o prestou! Um cabra que eu n\u00e3o conhecia se doeu e puxou uma faca pra mim querendo defender o qualira. A\u00ed o desmantelo foi grande!<br>\u2014Mas n\u00e3o afetou nada por dentro?\u2014perguntei por curiosidade<br>\u2014N\u00e3o! A lapada foi de lado, s\u00f3 triscou a peule, malem\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso foi h\u00e1 tempos, agora tomou rumo. Entrou pra cren\u00e7a h\u00e1 alguns anos o que o fez mudar de comportamento. Nada que o fa\u00e7a um evang\u00e9lico fervoroso e ass\u00edduo,todavia, defende suas convic\u00e7\u00f5es religiosas. N\u00e3o anda mais atr\u00e1s de rapariga e parou de beber e fumar. Esteve na ilha de Maraj\u00f3 tangendo b\u00fafalos por uns seis meses sem nenhuma reca\u00edda. Sem nenhum deslize. S\u00f3 n\u00e3o deu certo mode a fam\u00eda que n\u00e3o quis ir para a regi\u00e3o e ele, sozinho, n\u00e3o podia ficar t\u00e3o longe. Aproveitou que veio curar o espinha\u00e7o desmantelado de uma queda do cavalo, e n\u00e3o voltou mais.<br>\u2014Agora sou homi s\u00e9ro. Com a gra\u00e7a do Senhor!<\/p>\n\n\n\n<p>Sentamos frente \u00e0 casa, sob uma sombrosa e agrad\u00e1vel moita de a\u00e7a\u00ed, nuns mochos de madeira com assento de couro cru, tipo uns tamboretes, feitos por ele mesmo.<br>\u2014Isso aqui \u00e9 de couro de veado mateiro. Dura a vida toda. Foi do \u00faltimo que matei! \u2014lembrando de seu tempo de ca\u00e7ador.<\/p>\n\n\n\n<p>Bateu na pele esticada e ressecada com os n\u00f3s dos dedos para mostrar a resist\u00eancia do assento. Ap\u00f3s alguns minutos de prosa, caminhou para dentro da casa assunt\u00e1 as quantas andava o cozimento do pato e voltou com uma foto amarelada e desgastada. Peguei com cuidado, pois a moldura estava se desfazendo, mesmo amarrada aos cantos com barbante. L\u00e1 estava ele sorridente, com um enorme pirarucu. Uma recorda\u00e7\u00e3o de um pescador do sul que tinha acompanhado como guia numa pescaria no Curu\u00e1-Una h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s.<br>\u2014Isso faz um bucado de tempo! J\u00e1 peguei muito desses monstros! Agora \u00e9 improibido, t\u00e3o dizendo que t\u00e1 acabando. Mas ainda tem muito deles por a\u00ed!<\/p>\n\n\n\n<p>Tentei conscientiz\u00e1-lo de que os muitos s\u00e3o poucos para a preserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie e que realmente est\u00e3o desaparecendo. Parece que por quest\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o e simpatia, concordou! Continuamos dissertando sobre a preserva\u00e7\u00e3o da vida selvagem e a necessidade do controle manejado da natureza. A conversa parece ter ficado enfadonha para ele, pediu licen\u00e7a e voltou com a foto para dentro de casa para guard\u00e1-la. No retorno veio acompanhado de toda a fam\u00edlia. A esposa Dona Quit\u00e9ria, duas adolescentes de quatorze e quinze anos, outra de doze, a ca\u00e7ula de oito anos e \u00fanico menino de sete anos. N\u00e3o t\u00ednhamos percebido nenhum movimento dentro da casa que pudesse denunciar a presen\u00e7a de tanta gente. Mas a apar\u00eancia de cada um deles justificava o comportamento no interior de casa. Estavam todos com os cabelos molhados e penteados e cheirando a perfumes comuns de odor enjoativo. Roupas limpas e chinelos nos p\u00e9s. Obviamente, foram ordenados a arrumarem-se para a apresenta\u00e7\u00e3o. Era o que estavam fazendo silenciosamente. Cumprimentamos um a um. Os menores nos beijam a m\u00e3o, num gesto de aproxima\u00e7\u00e3o respeitosa cultuada na regi\u00e3o. Dona Quit\u00e9ria de cabelos pretos longos devia estar usando o vestido com o qual freq\u00fcentava os cultos da Igreja. As duas adolescentes eram muito bonitas. Estavam com alguma maquiagem e batom, o que real\u00e7ava bem a cor da pele bronzeada. Uma delas, a de quatorze anos, estava gr\u00e1vida. N\u00e3o havia aparentemente, nenhum constrangimento por causa disso. Ent\u00e3o perguntamos quando ia nascer o beb\u00ea.<br>\u2014Acho que daqui a um cinco meis!<br>\u2014T\u00e1 prenha, mas n\u00e3o tem marido naum sinh\u00f4! Adiantou-se a explicar o seu Bernardo.<br>\u2014Mas hoje est\u00e1 assim mesmo seu Bernardo. \u00c9 essa juventude moderna! Tentamos atenuar.<br>\u2014Num foi isso n\u00e3o sinh\u00f4! \u00c9 fio de boto! A mais v\u00e9ia j\u00e1 pariu. V\u00e1 l\u00e1 dentro buscar o menino pro homi v\u00ea, fia! Determinou carinhosamente \u00e0 m\u00e3e adolescente.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 conhec\u00edamos o fant\u00e1stico folclore do boto cor de rosa um dos mais interessante e arraigado da cultura amazonense. Quando se aproximam das praias dos rios amaz\u00f4nicos onde as mulheres lavam roupas ou se banham, transformam-se em formosos rapazes e raptam as mais desprevenidas, devolvendo-as j\u00e1 gr\u00e1vidas. Mas ouvir a hist\u00f3ria ao vivo, do pai de duas v\u00edtimas, era algo realmente inusitado e at\u00e9 po\u00e9tico.<br>\u2014Isso \u00e9 ra\u00e7a de bicho saliente! N\u00e3o pode ver a mui\u00e9rada na beira d\u00e1gua que j\u00e1 vem chegando. Tem que ter uma sempre vigiando a \u00e1gua mode v\u00ea se aparece algum boto! \u2014justificando a situa\u00e7\u00e3o.<br>\u2014E a\u00ed, como que fazem quando os botos chegam perto? \u2014arrisquei.<br>\u2014Tem que sair na carrera e esper\u00e1 eles ir embora! A mui\u00e9rada dana a jog\u00e1 pedra e pau e eles se v\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Era dif\u00edcil imaginar aquele caboclo viajado, com bons conceitos de moralidade, sem nunca levar desaforo pr\u00e1 casa, contando uma hist\u00f3ria dessas com tamanha naturalidade e convic\u00e7\u00e3o e, sobretudo, sendo o seu principal narrador. \u00c9 muito freq\u00fcente, todavia, as meninas quando percebem a gravidez, de imediato nomeiam o boto como o respons\u00e1vel, na base da malandragem. Todos evitam especular detalhes. Apenas que foi o boto. Isso mostra o quanto a crendice popular \u00e9 determinante na vida dessa gente. Alguns ficam desconfiados. Mas apenas desconfiados, evitando se aprofundar pelo assunto. Dessa forma, deduz-se que em suas mentes n\u00e3o se discute o fato de que dezenas de crian\u00e7as nascem e crescem com essa pecha de filho de boto. S\u00e3o registrados como se fossem filhos dos av\u00f3s em situa\u00e7\u00e3o definitivamente normal.<br>\u2014A mui\u00e9 vivia avisando! Cuidado com essas gra\u00e7as na beira do rio! Mas de nada adiantou. Vamu v\u00ea se essas outras piqueninha aqui num vai facilit\u00e1! \u2014passou o bra\u00e7o pela cintura da ca\u00e7ula carinhosamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse momento chega a filha mais velha com o beb\u00ea no colo. A m\u00e3e virou-se de lado mostrando a crian\u00e7a. Tinha seis meses de idade e estava dormindo. Curiosamente, sua pele era muito escura contrastando de forma suspeita com a do resto da fam\u00edlia. De forma meio precipitada arriscamos:<br>\u2014O boto, pai desse menino era preto seu Bernardo? Houve um momento de constrangimento pela observa\u00e7\u00e3o inoportuna, mas felizmente aliviado pelo bom humor e a inoc\u00eancia do av\u00f4 coruja.<br>\u2014Essa marca de bicho d\u00e1 de toda a cor seu Roberto! S\u00f3 pra fazer maldade com fia alheia!<\/p>\n\n\n\n<p>Em nenhum momento as meninas ou a m\u00e3e, esbo\u00e7aram qualquer coment\u00e1rio acerca do assunto. N\u00e3o ousamos nenhum questionamento muito menos uma argumenta\u00e7\u00e3o. Tivemos vontade de satisfazer nossa curiosidade, apenas por conta da situa\u00e7\u00e3o dos verdadeiros pais. Como se mant\u00eam no permanente anonimato sem nunca assumirem a paternidade? Quando casam e suas filhas ficam gr\u00e1vidas do boto, como administram a ocorr\u00eancia? E as m\u00e3es, que tanto quanto os pais sabem perfeitamente que n\u00e3o foi o boto? Nunca revelam a farsa? Como podem manter essa fantasia por tanto tempo? Mas preferimos deixar tudo como estava. Afinal, a outra filha iria parir em breve um filho de boto! Seria mais um motivo de alegria para aquela fam\u00edlia!<br>N\u00e3o seria eu quem iria questionar ou discorrer sobre o absurdo embuste, fruto da criatividade do povo amaz\u00f4nico.<br>Dona Quit\u00e9ria interrompeu a reflex\u00e3o chamando-nos para o almo\u00e7o. O pato no tucupi estava pronto e seria servido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Rio Curu\u00e1-Una \u00e9 represado na altura dos limites da cidade de Santar\u00e9m, no Par\u00e1, alguns quil\u00f4metros antes de desaguar no Amazonas, onde move as turbinas de uma hidroel\u00e9trica. Forma um lago imenso e extraordinariamente bonito e, alguns quil\u00f4metros abaixo, mant\u00e9m-se mais estreito e com exuberante mata ciliar. 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