{"id":985,"date":"2008-10-10T13:18:42","date_gmt":"2008-10-10T16:18:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=985"},"modified":"2021-09-30T16:23:05","modified_gmt":"2021-09-30T19:23:05","slug":"peixe-bala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/peixe-bala\/","title":{"rendered":"Peixe bala"},"content":{"rendered":"\n<p>O rio Pindar\u00e9 percorre km antes de sua desembocadura no Mearim. Outrora, a partir de sua nascente, era piscoso principalmente em peixes de couro como surubim, mandub\u00e9, l\u00edrio e outros bagres, al\u00e9m de grandes piranhas e pescadas brancas. Na \u00e9poca, sua mata ciliar de caracter\u00edsticas amaz\u00f4nicas, exibia, em alguns trechos, exuberante paisagem verde com uma diversidade abundante de fauna e flora. Contudo, isso \u00e9 passado. Com o advento da constru\u00e7\u00e3o da Ferrovia dos Caraj\u00e1s a Amaz\u00f4nia Maranhense entrou em r\u00e1pida e irrevers\u00edvel degrada\u00e7\u00e3o. Um gigantesco e desastroso crime ambiental, acelerado pela gan\u00e2ncia de madeireiros, a ind\u00fastria da invas\u00e3o e, fundamentalmente, pelo descaso das autoridades ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>A ansiedade e a expectativa nos deixavam animados com a possibilidade de fisgar um grande surubim. O local do acampamento, previamente determinado, era pr\u00f3ximo a uma comunidade quilombola situada n\u00e3o muito distante do rio e \u00e0 margem da ferrovia, em uma regi\u00e3o conhecida como Presa de Porco. N\u00e3o mais de quarenta descendentes de escravos assentaram-se no local em busca de alguma terra para sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Juli\u00e3o, pioneiro na regi\u00e3o e l\u00edder da comunidade j\u00e1 era nosso conhecido. Um negro altivo de postura respeit\u00e1vel, alto e de semblante que denunciava as agruras e o sofrimento impostos pela \u00e1rdua batalha pela vida, por\u00e9m com um sorriso pl\u00e1cido e irradiante. Sua amabilidade, caracter\u00edstica desse povo do interior, nos deixava muito \u00e0 vontade. Quase aos setenta anos julgava ter encontrado um lugar definitivo para seu povo ap\u00f3s longos anos de peregrina\u00e7\u00e3o perambulando por v\u00e1rias regi\u00f5es do estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de uma viagem de quatro horas por estradas vicinais de dif\u00edcil acesso chegamos ao \u201cPovoado dos Pretos\u201d. Reconhecemos logo seu Juli\u00e3o, que tangia uns bodes para dentro de um pequeno curral. Veio ao nosso encontro e nos cumprimentamos. Convers\u00e1vamos enquanto tir\u00e1vamos as tralhas do carro. Informou-nos que o clima na regi\u00e3o estava tenso por conta de uma invas\u00e3o de sem terras em uma reserva dos \u00edndios Guajajaras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 mi\u00f3 oc\u00eais fic\u00e1 por aqui int\u00e9 essa confus\u00e3o acaba. A poli\u00e7a t\u00e1 l\u00e1 embaixo na b\u00eara do rio!<\/p>\n\n\n\n<p>Ficamos assustados. Os \u00edndios guajajaras do lado direto e os invasores do lado esquerdo das margens do rio e a pol\u00edcia, \u00e0 sua maneira, tentando estabelecer a ordem. Achamos mais prudente aceitar o conselho de seu Juli\u00e3o e esperar a situa\u00e7\u00e3o se acalmar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dona Joaninha acabara de servir um caf\u00e9 quando ouvimos disparos vindo da dire\u00e7\u00e3o do rio. Seu Juli\u00e3o apressou-se a sair em dire\u00e7\u00e3o ao p\u00e1tio da vila e gesticulando muito come\u00e7ou a gritar:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Todo mundo p\u00e1 dentro! Esconde essas crian\u00e7a! Ningu\u00e9m sai enquanto eu num mand\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p>Estava agitado e depois de se assegurar que todos estavam protegidos manteve-se de p\u00e9, ao lado da casa, procurando observar algum movimento nas margens do rio. Aproximamo-nos do velho l\u00edder preocupados querendo entender a confus\u00e3o enquanto os tiros se sucediam. Ouvia-se perfeitamente a gritaria intercalada com os tiros, embora n\u00e3o se visualizasse nada da dist\u00e2ncia em que est\u00e1vamos.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Juli\u00e3o demonstrava nervosismo e preocupa\u00e7\u00e3o. Afinal aquilo estava ocorrendo quase no seu quintal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oc\u00eais tumem cuidado mode uma bala dessa pode sair avuando e peg\u00e1 a gente aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava certo! A nossa curiosidade estava nos expondo a esse risco. Entretanto, n\u00e3o demorou muito se fez um sil\u00eancio prenunciando o que talvez fosse a tr\u00e9gua. Os quilombolas assustados e ressabiados, tanto quanto n\u00f3s, saiam aos poucos do interior de seus ranchos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ser\u00e1 que acabou o tiroteio seu Juli\u00e3o? \u2014Perguntei inquieto.<br>\u2014 Sei num sinh\u00f4. Vamu esper\u00e1 mais um bucado!<\/p>\n\n\n\n<p>Nisso ouvimos a zuada de um carro em alta acelera\u00e7\u00e3o. Era uma camionete com a ca\u00e7amba cheia de policiais militares um dos quais parecendo ferido estendido que estava no colo dos companheiros com os p\u00e9s para fora da carroceria. Em segundos desapareceram pela estrada deixando atr\u00e1s uma enorme espiral de poeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Juli\u00e3o chamou um dos filhos:<br>\u2014 Tu vai l\u00e1 embaixo e repara o que t\u00e1 acuntecendo. V\u00ea se tem buia de gente por l\u00e1. Tomi cuidado!<\/p>\n\n\n\n<p>Rapidamente um grupo foi reunido e seguiu em dire\u00e7\u00e3o ao local do tiroteio para fazer um reconhecimento. Enquanto isso seu Juli\u00e3o nos explicava a origem do lit\u00edgio entre os invasores e \u00edndios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Si\u00f4 tem tanta terra por a\u00ed e esse povo qu\u00e9 invadi logo as terra dos \u00edndios. A\u00ed \u00e9 s\u00f3 pr\u00e1 d\u00e1 merda mesmo!<\/p>\n\n\n\n<p>Nos informou que a invas\u00e3o estava sendo preparada h\u00e1 alguns dias. Os \u00edndios avisaram a Funai e esta por sua vez notificou a pol\u00edcia da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo passava lentamente e est\u00e1vamos tensos e angustiados principalmente pelo desdobramento dos acontecimentos, pois pela quantidade de tiros disparados algo grave poderia ter ocorrido. Afinal n\u00e3o \u00e9 sempre que nos vemos entre um tiroteio de pol\u00edcia, sem terras e \u00edndios.<\/p>\n\n\n\n<p>Repentinamente um dos rapazes apareceu ofegante com not\u00edcias do front.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu Juli\u00e3o o antecipou:<br>\u2014 Cuma \u00e9 que t\u00e1 l\u00e1?<br>\u2014 O pipoco foi feio mais num morreu nenhum crist\u00e3o naum! Morreu o jegue de seu Ribinha que tava amarrado no capim, um poli\u00e7a e um \u00edndio!<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das circunst\u00e2ncias rimos de forma comedida da naturalidade e ingenuidade do rapaz que prosseguia com o relato:<br>\u2014 Seu Ribinha t\u00e1 l\u00e1 injuriado, aguniadinho com o jegue, o \u00edndio caiu no rio, mas j\u00e1 levaram pr\u00e1 aldeia. O poli\u00e7a foi no carro deles com mais dois sangrando igual bode capado.<br>\u2014 E os invas\u00f4? \u2014 perguntou seu Juli\u00e3o, aparentando mais tranq\u00fcilidade.<br>\u2014 Sei naum sinh\u00f4! Foram embora. Tavam tudo avexado. Seu Ribinha viu tudinho e disse que tem dois sendo carregado na rede cuns gimido que faiz d\u00f3!<\/p>\n\n\n\n<p>Ficamos impressionados com a naturalidade com que encaravam o confronto e seu tr\u00e1gico final, principalmente pela forma de aceitar a morte do \u00edndio e do policial sem nenhum pesar ou consterna\u00e7\u00e3o, equiparando-os ao jegue, que n\u00e3o era filho de Deus, num claro comportamento cultural que os demovem desses sentimentos. Algumas horas mais tarde a vila voltou ao normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Passado o susto e aconselhados pelo seu Juli\u00e3o, deixamos a poeira abaixar. Jantamos com a fam\u00edlia, um bode no leite de coco, dormimos e no outro dia cedinho j\u00e1 est\u00e1vamos na beira do rio longe do local do confronto. Mas essa \u00e9 outra hist\u00f3ria, em outro cap\u00edtulo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O rio Pindar\u00e9 percorre km antes de sua desembocadura no Mearim. 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