{"id":1703,"date":"2006-07-21T23:33:06","date_gmt":"2006-07-22T02:33:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=1703"},"modified":"2021-12-30T19:40:28","modified_gmt":"2021-12-30T22:40:28","slug":"quinta-dimensao-misterio-no-pantanal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/quinta-dimensao-misterio-no-pantanal\/","title":{"rendered":"Quinta dimens\u00e3o &#8211; Mist\u00e9rio no Pantanal)"},"content":{"rendered":"\n<p>Sempre gostei de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e, na minha juventude, n\u00e3o perdia um cap\u00edtulo das s\u00e9ries \u201cQuinta Dimens\u00e3o\u201d e \u201cAl\u00e9m da Imagina\u00e7\u00e3o\u201d. Mais tarde, j\u00e1 entrado nos trinta, conheci um amigo, engenheiro eletr\u00f4nico, que hoje \u00e9 um dos mais conhecidos e respeitados uf\u00f3logos do meio, escrevendo para revistas do segmento, e figurinha carimbada nos programas de televis\u00e3o quando enfocam esse tema. Seu nome \u00e9 Claudeir Covo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como gostava do assunto, n\u00e3o perdia oportunidade de contestar suas opini\u00f5es, mais no sentido de estimul\u00e1-lo a falar do que propriamente n\u00e3o concordar com ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas vezes pescamos juntos, e, mais do que a paix\u00e3o pela pesca, movia o Claudeir o gosto pela aventura e pela natureza, pelo desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;N\u00e3o raro sa\u00edamos do assunto UFO\u2019s para outros mist\u00e9rios da natureza, como lendas e folclore.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, em todas minhas viagens de pescaria, principalmente por regi\u00f5es mais afastadas, ficava \u00e0 noite observando o c\u00e9u em busca de algum ind\u00edcio de discos voadores ou qualquer outro fen\u00f4meno desconhecido. Nunca vi nada de anormal, pois mais que vigiasse, mas at\u00e9 hoje n\u00e3o perdi a mania de ficar procurando alguma coisa de inusitado quando a ocasi\u00e3o se oferece.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso que vou narrar nada tem a ver com discos voadores, mas se fiz esses coment\u00e1rios iniciais foram para situar os amigos com outros pontos de interesse de minha parte.<\/p>\n\n\n\n<p>Corria o ano de 1994, e na ocasi\u00e3o estava em Porto Jofre com uma turma de amigos, pescando e gravando algumas cenas para o v\u00eddeo \u201cPescando com Fly no Pantanal\u201d. Mais diretamente ligados \u00e0s grava\u00e7\u00f5es estavam o Paulo C\u00e9sar Domingues da Silva e o Quico Guarnieri, assim como o Wilson Feitosa, na condi\u00e7\u00e3o de anfitri\u00e3o com seu hotel \u00e0s margens do Rio S\u00e3o Louren\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A id\u00e9ia era gravar algumas cenas da pesca do tucunar\u00e9, e para isso sa\u00edmos de Porto Jofre em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s lagoas do Rio Piqueri, distantes aproximadamente duas horas e meia do local. Como seria sacrificado ir e voltar no mesmo dia, ainda mais sabendo que em pescaria n\u00e3o h\u00e1 garantias, ficar\u00edamos hospedados numa fazenda perto dos locais de pesca.<\/p>\n\n\n\n<p>Vou chamar a fazenda de Fazenda Mangueiral, embora n\u00e3o tenha certeza do nome.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 morava uma fam\u00edlia que hospedava os conhecidos, com acordo pr\u00e9vio, servindo inclusive refei\u00e7\u00f5es. O Wilson j\u00e1 tinha combinado tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa fazenda tinha sido constru\u00edda j\u00e1 com o intuito de abrigar pescadores, mas n\u00e3o sei por qual motivo n\u00e3o estava em opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da casa da fazenda, onde morava a fam\u00edlia, tinha seis chal\u00e9s conjugados, de dois em dois, unidos por uma passarela de cimento de um metro de largura, mais ou menos, com uns cinco cent\u00edmetros de altura do ch\u00e3o. Cada chal\u00e9 desses tinha uma porta de entrada com prote\u00e7\u00e3o para mosquito, no sistema m\u00f3vel, como porta de filme de Cowboy. Essa porta dava para uma pequena sala de entrada, com 2x3metros, cuja finalidade seria guardar isopores, varas, etc. Em cada extremidade dessa sala tinha uma porta que dava para cada chal\u00e9, que era um quarto com duas camas e banheiro. Eu e o Paulo C\u00e9sar ficamos em um quarto desse, e o outro, conjugado, desocupado. O Quico e o Wilson ficaram em outro bloco, mais afastados.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem, sa\u00edmos para pescar e por volta das cinco da tarde o tempo virou. Est\u00e1vamos no m\u00eas de abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltamos \u00e0 fazenda e o mundo caiu. Mal tivemos tempo de chegar aos chal\u00e9s. Ap\u00f3s um banho e troca de roupas, fomos \u00e0 casa principal debaixo de chuva, onde nos esperava um bom jantar e um bom papo. Embora molhados, nada que uma \u201cbranquinha\u201d acompanhada de uma cerveja n\u00e3o resolvesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de tudo, n\u00e3o me sentia \u00e0 vontade. Estava entre amigos e rolava um bom papo, mas meu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o sossegava. Nessas horas a gente pensa em casa, na fam\u00edlia&#8230; Ser\u00e1 que est\u00e1 tudo bem?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;A chuva forte continuava e os trov\u00f5es clareavam tudo. Um belo espet\u00e1culo ao qual estou acostumado e que considero uma das maneiras mais gostosas de pegar no sono. Mas nesse dia parecia que estavam me mandando um recado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 pelas nove horas fomos deitar. Ainda conversamos um pouco, eu e o Paulo, al\u00e9m da revis\u00e3o de praxe no material de pesca e equipamentos de grava\u00e7\u00e3o. L\u00e1 fora a chuva continuava na mesma intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Demorei a pegar no sono, como de costume, mas o Paulo n\u00e3o se fez de rogado, apagou logo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei que horas eram, mas acordei com um barulho estranho em cima da casa. A princ\u00edpio parecia que os galhos das \u00e1rvores estavam batendo no teto, movidas pelo vento, mas o barulho foi aumentando, aumentando&#8230; J\u00e1 n\u00e3o parecia somente o choque dos galhos, mas como se um animal estivesse a correr e a querer arrebentar as telhas com suas garras. A chuva e o vento continuavam&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A essa altura, confesso que o medo me invadiu. Olhei para o Paulo na esperan\u00e7a que ele acordasse, mas n\u00e3o dava sinais de vida, continuava apagado. Acendi a luz esperando afugentar o animal que porventura estivesse ali, mas apaguei logo para n\u00e3o atrapalhar o sono do Paulo, embora desejando que ele acordasse, mas nada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Por um momento achei que o barulho tinha diminu\u00eddo, mas come\u00e7ou tudo de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem saber o que fazer, s\u00f3 me restava aguardar. Ir l\u00e1 fora, nem pensar&#8230; E n\u00e3o era por causa da chuva&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed aconteceu o mais esquisito. De repente, sem explica\u00e7\u00e3o ou fase intermedi\u00e1ria, o barulho transferiu-se num passe de m\u00e1gica para a pequena sala de entrada, hall para os quartos. Parecia um animal selvagem preso num pequeno espa\u00e7o, como se querendo despeda\u00e7ar tudo que por ali estivesse. Al\u00e9m de equipamentos de pesca, l\u00e1 ficava um grande isopor que eu usava para transportar o material de grava\u00e7\u00e3o, como monitor, fitas, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O barulho era tanto e t\u00e3o infernal que pensei at\u00e9 em ser uma on\u00e7a. Nessa hora nossa imagina\u00e7\u00e3o voa, e o medo nos faz ver e ouvir coisas que n\u00e3o sabemos explicar.<\/p>\n\n\n\n<p>A porta estava fechada, mas corri para passar a chave. Nova surpresa: N\u00e3o tinha chave! No outro dia vim a saber que nenhum quarto possu\u00eda chave.<\/p>\n\n\n\n<p>O que fazer? N\u00e3o me restou alternativa a n\u00e3o ser acordar o Paulo e explicar a situa\u00e7\u00e3o: &#8211; Paulinho acho que tem um bicho a\u00ed dentro! O jeito \u00e9 ver o que \u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas horas \u00e9 que \u00e9 bom n\u00e3o se ter uma arma. Se eu tivesse, teria feito uma besteira. Teria descarregado a arma em dire\u00e7\u00e3o ao barulho mesmo com a porta fechada.<\/p>\n\n\n\n<p>Fomos os dois juntos at\u00e9 a porta e num movimento sincronizado, acendemos a luz e abrimos a porta! Sil\u00eancio total&#8230; Olhamos atr\u00e1s do isopor, vasculhamos tudo e nada&#8230; Nenhuma marca no isopor&#8230; Confesso que fiquei sem entender e um arrepio correu minha espinha&#8230; L\u00e1 fora a chuva continuava, com menos intensidade, mas constante. Os trov\u00f5es eram mais esparsos, mas ainda estavam por ali&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Abestalhado, contei ao Paulo tudo que tinha ouvido. N\u00e3o chegamos a nenhuma conclus\u00e3o e o rem\u00e9dio foi voltar a deitar. Como n\u00e3o tinha chave, fiz uma barricada na porta com a maleta de minha c\u00e2mera. Provid\u00eancia in\u00fatil, pois qualquer crian\u00e7a poderia for\u00e7ar a entrada se quisesse.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo o Paulo voltou a dormir. Fiquei em vig\u00edlia quase o resto da noite. Quase porque em certo momento tamb\u00e9m apaguei.<\/p>\n\n\n\n<p>Os barulhos voltaram, dessa vez do lado de fora, em cima da casa, mas com menos intensidade, \u00e0s vezes como galhos batendo no teto, \u00e0s vezes como se fosse algum animal com suas garras.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a entrada da frente fria, a pescaria tinha terminado. O frio era insuport\u00e1vel, e o bom senso mandava retornar \u00e0 base. Eu estava louco para sair dali, mas o pessoal resolveu ficar mais um dia porque o rio n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de navega\u00e7\u00e3o devido \u00e0s ondas e o vento. Por mim, eu iria at\u00e9 a nado, mas venceu a maioria.<\/p>\n\n\n\n<p>Comentei com o pessoal durante o dia o que tinha ocorrido, mas por alto, sem entrar em maiores detalhes, com medo de ouvir o que n\u00e3o queria. Evitei at\u00e9 conversar mais detalhadamente com o Paulo. De acordo com a maioria, devia ser o vento jogando os galhos contra o teto. Mas e o barulho da ante-sala?<\/p>\n\n\n\n<p>Passei o dia meio tenso e n\u00e3o restou outra alternativa sen\u00e3o passar mais uma noite no chal\u00e9. Estiquei o m\u00e1ximo poss\u00edvel o hor\u00e1rio de ir para a cama, e ainda ajudei o sono com a companhia de algumas \u201cbranquinhas\u201d, mas n\u00e3o teve jeito, o hor\u00e1rio chegou!<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa noite pendurei um crucifixo que sempre me acompanhou em todas as viagens (at\u00e9 ser roubado) no p\u00e9 da cama.<\/p>\n\n\n\n<p>Os barulhos voltaram, esquisitos como na noite anterior, mas com bem menos intensidade, e s\u00f3 do lado de fora, em cima da casa. Passei a noite sem maiores problemas.<\/p>\n\n\n\n<p>No outro dia bem cedo embarcamos de volta para Porto Jofre. Nunca me senti t\u00e3o aliviado em sair de algum lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Como muitas pessoas da regi\u00e3o tinham ficado presas nas fazendas devido o mau tempo, os barcos levavam alguns caronas que iam ficando no meio do caminho. Em nosso barco ia um senhor bem entrado na idade, bem acocorado com uma manta devido o frio. Em um determinado ponto ele saltou. Ao ajud\u00e1-lo a sair do barco, agradeceu e deu um sorrisinho maroto, dizendo algo como \u201cprote\u00e7\u00e3o e aperto\u201d, que n\u00e3o entendi direito, talvez nem tenha sido isso&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Senti um arrepio e n\u00e3o tive condi\u00e7\u00f5es de dizer nada&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 hoje n\u00e3o contei a ningu\u00e9m em detalhes o que se passou comigo naquela noite, nem \u00e0 minha fam\u00edlia, apenas por alto. \u00c9 interessante como guardamos conosco algumas lembran\u00e7as que n\u00e3o conseguimos partilhar na totalidade com ningu\u00e9m, at\u00e9 chegar o momento certo. At\u00e9 o Paulo n\u00e3o teve percep\u00e7\u00e3o do que aconteceu comigo. O que ter\u00e1 havido? Apenas imagina\u00e7\u00e3o? N\u00e3o quero saber a resposta&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei a passar pela fazenda Mangueiral alguns anos depois. Os moradores n\u00e3o s\u00e3o os mesmos, e procurei guardar na lembran\u00e7a apenas os bons momentos vividos por l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>O que aconteceu naquele dia est\u00e1 no passado e o local continua com aquela for\u00e7a e exuber\u00e2ncia pr\u00f3prias do Pantanal, com seus mist\u00e9rios e esp\u00edritos da floresta. Ainda hoje n\u00e3o perdi a mania de olhar os c\u00e9us \u00e0 procura de sinais fora do normal, devo isso ao Claudeir. Hoje em dia nos comunicamos esporadicamente, por ocasi\u00e3o de datas festivas como o Natal e Ano Novo, e \u00e9 s\u00f3. Talvez algum dia possa lhe mandar assunto para estudos e pesquisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sempre gostei de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, e, na minha juventude, n\u00e3o perdia um cap\u00edtulo das s\u00e9ries \u201cQuinta Dimens\u00e3o\u201d e \u201cAl\u00e9m da Imagina\u00e7\u00e3o\u201d. 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