{"id":1008,"date":"2008-06-09T22:06:52","date_gmt":"2008-06-10T01:06:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=1008"},"modified":"2021-10-01T10:25:45","modified_gmt":"2021-10-01T13:25:45","slug":"a-jumenta-da-mare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/a-jumenta-da-mare\/","title":{"rendered":"A jumenta da mar\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p>Cara Pr\u00e1 Lua cresceu na regi\u00e3o sempre pescando com o pai e os irm\u00e3os para ajudar na sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia como tantas outras crian\u00e7as e adolescentes ainda hoje o fazem. Menino gostava de andar com uma turma de quatro ou cinco amigos de sua predile\u00e7\u00e3o, que juntos faziam suas traquinagens e perversidades t\u00edpicas da idade. O mais chegado a ele era Bajorra, vizinho e quase irm\u00e3o pelo qual at\u00e9 hoje nutre grande amizade e a rec\u00edproca \u00e9 verdadeira. Num desses dias de vadiagem, com a lua ruim pra pescaria, sa\u00edram para a ca\u00e7ada de rolas num apicum nos limites da cidade, que na vazante formava uma extensa plan\u00edcie at\u00e9 o mangue. No caminho previamente combinado, juntaram-se a eles Derinho e Meu Grelo, garotos da mesma faixa et\u00e1ria, todos de bom relacionamento e de grande cumplicidade entre si. Cada qual com a sua baladeira no pesco\u00e7o e uma boroca de pelotas de barro no costado, rumaram em dire\u00e7\u00e3o ao campo, onde as rolas aos bandos se banqueteavam beliscando pequenos mariscos e insetos na mar\u00e9 baixa.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 com o sol alto tinham nas borocas alguns p\u00e1ssaros abatidos por pelotas certeiras e decidiram, como sempre faziam, com\u00ea-los assados ali mesmo. Enquanto uns faziam o fogo e outros tiravam as penas e v\u00edceras das pobrezinhas, perceberam pela batida lenta e seca no solo, a aproxima\u00e7\u00e3o de uma jumenta que procurava pastagem na parte seca do apicum, justamente onde estavam. O animal parou pr\u00f3ximo ao grupo e come\u00e7ou a ceifar a erva salgada. A cada momento que erguia a cabe\u00e7a com um tufo de capim do lado da boca, olhava para os meninos de forma curiosa e despreocupante. Aquilo era uma provoca\u00e7\u00e3o! Uma jumenta novinha daquelas, sadia e toda ajeitadazinha andando por ali, s\u00f3 queria mesmo lev\u00e1 ferro. Bajorra o mais abusado e saliente da turma provocou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Embora esfreg\u00e1 essa jumenta? \u2014 enquanto pendurava as rolas num galho seco.<br>\u2014 Embora l\u00e1! \u2014 responderam quase juntos Derinho e Meu Grelo.<\/p>\n\n\n\n<p>Cara Pr\u00e1 Lua tentou dissuadir os companheiros da empreitada, receoso que estava, mas foi voto vencido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Essa jumenta \u00e9 do seu Ribinha e n\u00e3o tarda ele aparece por aqui e pode d\u00e1 de cara cum n\u00f3is grudado na bunda da bicha. Isso num vai prest\u00e1! \u2014 tentando alertar os amigos.<br>\u2014 Qui nada Cara Pr\u00e1 Lua! \u00c9 rapidinho! Vamu logo faz\u00ea uma escada com esse p\u00e9 de pau \u2014 sugeriu Bajorra.<\/p>\n\n\n\n<p>Apanhou um toro de madeira que, usado como degrau, facilitava o alcance na anca da jumenta na hora do revezamento do esfr\u00e9ga. Estava no comando e nessas horas a lealdade e a cumplicidade valem muito entre amigos e assim sendo, todos estavam juntos na mesma causa ainda que, Cara Pr\u00e1 Lua por mais que disfar\u00e7asse, mantinha-se um pouco relutante visto temer que o fato pudesse chegar at\u00e9 o dono da jumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Bajorra mentor daquela estripulia foi o primeiro da fila. No entanto ao subir no apoio improvisado, a jumentinha deu um passo \u00e0 frente e ensaiou uma carreira quase o derrubando. Praguejou contra o animal e segurou-o pelo rabo enquanto Cara Pr\u00e1 Lua, Derinho e Meu Grelo, a prendiam pelo pesco\u00e7o evitando que sa\u00edsse do lugar, para que Bajorra desse logo uma ferrada na jumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Aqu\u00e9ta a\u00ed sua sacana! \u2014 esbravejava enquanto tomava posi\u00e7\u00e3o para nova tentativa. O esfor\u00e7o de nada adiantava, quanto mais a seguravam mais inquieta e desassossegada ficava a jumenta e isso se tornava um problem\u00e3o. Em geral s\u00e3o calmas e tranq\u00fcilas e aquela agita\u00e7\u00e3o n\u00e3o era coisa que estivessem acostumados a administrar, por mais esfor\u00e7o que desprendessem. Desistir n\u00e3o seria a op\u00e7\u00e3o das mais dignas para a ocasi\u00e3o. N\u00e3o era uma jumentinha dessas, sem experi\u00eancia, teimosa que iria demov\u00ea-los do objetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Subitamente, Cara Pr\u00e1 Lua agora j\u00e1 no clima da molecagem, teve uma id\u00e9ia no m\u00ednimo original para n\u00e3o dizer genial. Derinho e Meu Grelo seguraram a jumenta pelo pesco\u00e7o enquanto Bajorra e Cara Pr\u00e1 Lua a empurravam pelas ancas at\u00e9 a mar\u00e9. Presa com as quatro patas atoladas na lama do mangue n\u00e3o podia sair do lugar, o m\u00e1ximo que conseguia era mexer a cabe\u00e7a. Os quatro libertinos, tamb\u00e9m enterrados at\u00e9 as canelas no barro preto e pegajoso, dominaram com facilidade a jumenta que resignada e im\u00f3vel, se limitava a olhar para tr\u00e1s como se tentando entender aquela presepada. Todavia, n\u00e3o contavam com o inesperado. A mar\u00e9 subia rapidamente surpreendendo a molecada e a jumenta agora n\u00e3o podia sair do lugar. Estava literalmente atolada, estancada na lama. Puxaram-na pelo rabo, pela cabe\u00e7a e nada! N\u00e3o se movia um cent\u00edmetro sequer. Nesse momento deram conta da encrenca e o desespero come\u00e7ou a inquiet\u00e1-los. A mar\u00e9 continuava a subir e em pouco tempo o pobre animal estaria submerso, afogado de forma est\u00fapida e covarde. Apesar de tudo, n\u00e3o iam permitir que isso acontecesse. Isso n\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p>Bajorra sugeriu uma id\u00e9ia. Seu tio Z\u00e9 Berada, certa ocasi\u00e3o liderou uma opera\u00e7\u00e3o de salvamento em situa\u00e7\u00e3o id\u00eantica, de uma bezerra b\u00fafala. Lembrou-se dos detalhes e arquitetou o plano. Rapidamente teceram umas embiras forte de talo de carna\u00faba, abundante no apicunzal, circundaram o ventre da jumenta at\u00e9 o costado e por dentro, atravessaram um camb\u00e3o comprido com o qual poderia alavancar a criatura na tentativa de vir\u00e1-la na posi\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria e ajud\u00e1-la a sair do atoleiro. O esfor\u00e7o era brutal e se angustiavam \u00e0 medida que a \u00e1gua da mar\u00e9 se aproximava da cabe\u00e7a do animal. Ap\u00f3s cada f\u00f4lego retomavam as posi\u00e7\u00f5es da opera\u00e7\u00e3o. Dois de cada lado tentando suspender a jumenta pelo la\u00e7o que, como se compreendendo a trag\u00e9dia eminente, come\u00e7ou a se mover freneticamente de tal forma que os moleques sentiram-se mais otimistas e aliviados. A mar\u00e9 continuava subindo. O animal aflito levantava a cabe\u00e7a e o plexo na tentativa desesperada de safar-se da armadilha. O movimento desesperado e a corrente mais forte das ondas come\u00e7ou a diluir a lama grudenta facilitando o movimento do animal que, sincronizado com a for\u00e7a dos quatro, conseguiu virar-se e chegar \u00e0 terra firme. A euforia era grande e o sentimento de al\u00edvio maior ainda. A jumenta toda espargida de lama, saiu troteando em dire\u00e7\u00e3o ao campo seco, desaparecendo entre as carnaubeiras. Fora aliciada, humilhada e quase v\u00edtima de afogamento e tudo que queria naquele momento era manter maior dist\u00e2ncia poss\u00edvel daqueles s\u00e1dicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os quatro respiraram fundo, livraram-se da lama f\u00e9tida da mar\u00e9 e voltaram ao local do fogueira quase apagada. Reacenderam o fogo, lavaram os p\u00e1ssaros e prepararam o assado. Tudo n\u00e3o passara de um grande susto que iria servir de aprendizado. Coisa de mininu espr\u00edto de porco diriam hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentados em torno da fogueira come\u00e7aram a rir e fazerem piadas entre si sobre a ocorr\u00eancia. Cara Pr\u00e1 Lua olhou para os companheiros e resmungou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Eu num falei que isso num ia prest\u00e1?<br>\u2014 Nunca mais n\u00f3is vai ferr\u00e1 essa fela da mae! Num qu\u00e9 colabor\u00e1 vai se fud\u00ea! \u2014 decidiu Bajorra.<br>\u2014 A jumentinha do seu V\u00e1do \u00e9 mais mansinha e jeitosa, j\u00e1 conhece n\u00f3is e vem num estal\u00e1 dus dedos! Cum ela num tem erro! \u2014 arrematou Derinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nisso Meu Grelo, olhando para o lado, chama a aten\u00e7\u00e3o dos companheiros.<br>\u2014 Qui merda \u00f3ia que vem vindo acul\u00e1!<\/p>\n\n\n\n<p>Era seu Ribinha o dono da jumenta, que se aproximava do grupo carregando um la\u00e7o enrolado na m\u00e3o.<br>\u2014 Essis mininus num virum uma jumenta novinha pastando por aqui naum?<br>\u2014 Vimu naum sinh\u00f4 seu Ribinha! \u2014 responderam apressados.<br>\u2014 Mas se virem pode lev\u00e1 ela l\u00e1 pra casa que lhes d\u00f4 um agrado!<br>\u2014 T\u00e1 b\u00e3o seu Ribinha! D\u00eaxa cum n\u00f3is!<\/p>\n\n\n\n<p>O caboclo recusou gentilmente uma banda mal assada de uma rola oferecida por Cara Pr\u00e1 Lua, passou a m\u00e3o na cabe\u00e7a do Bajorra enquanto tomava o rumo de casa e elogiou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00cata mininus b\u00e3onzinhus! Int\u00e9 mais int\u00e3o!<br>\u2014 Int\u00e9 mais seu Ribinha!<br><br>Bajorra e Cara Pr\u00e1 Lua s\u00e3o nossos companheiros de pesca na Ilha da Macacoeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cara Pr\u00e1 Lua cresceu na regi\u00e3o sempre pescando com o pai e os irm\u00e3os para ajudar na sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia como tantas outras crian\u00e7as e adolescentes ainda hoje o fazem. Menino gostava de andar com uma turma de quatro ou cinco amigos de sua predile\u00e7\u00e3o, que juntos faziam suas traquinagens e perversidades t\u00edpicas da idade. 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