{"id":1006,"date":"2008-05-30T00:36:26","date_gmt":"2008-05-30T03:36:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=1006"},"modified":"2021-10-01T10:23:31","modified_gmt":"2021-10-01T13:23:31","slug":"o-filhote-de-guara","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/o-filhote-de-guara\/","title":{"rendered":"O filhote de Guar\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>Dona Antera fazia as \u00faltimas recomenda\u00e7\u00f5es enquanto lavava as m\u00e3os em uma cuia grande \u00e0 luz fraca do candieiro esfuma\u00e7ante. Parteira de muitos atributos e famosa em toda a regi\u00e3o, n\u00e3o se lembrava mais de quantas crian\u00e7as teriam vindo ao mundo com o seu auxilio. Era madrinha de pelo menos a metade daquele povo mais novo. Leiga mas competente. Entretanto, tinha alguns conceitos pr\u00e1ticos que de vez em quando lhe traziam problemas no trabalho de parto, como introduzir pedra de sal bruto na vagina das coitadas para o dilatamento. Esse recurso era espor\u00e1dico, no entanto e n\u00e3o raro, causava hemorragia e traumas \u00e0 parturiente e ao rebento.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga, mo\u00e7o novinho e de boa \u00edndole, pescador de muitos predicados, mas extremamente ing\u00eanuo, estava do lado de fora do casebre rodeado de amigos e curiosos. Pitava inquieto um porronca de fumo picado e n\u00e3o podia evitar a preocupa\u00e7\u00e3o e a ansiedade, afinal, esse neg\u00f3cio de sair de carreira atr\u00e1s de parteira era experi\u00eancia que ainda n\u00e3o lhe tinha sucedido. J\u00e1 tinha sim, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, participado das rodas em porta de barracos onde sempre se reuniam quase todos os pescadores do povoado \u00e0 espera do primeiro choro e o \u201cmijo\u201d de uma nova crian\u00e7a. O pai sempre tinha uma garrafa de \u201ctiquira\u201d para a ocasi\u00e3o. Essas not\u00edcias correm como o vento leste. Comunidade pequena, concentrada e basta algu\u00e9m mandar chamar a parteira que todos ficam sabendo que a hora chegou.<\/p>\n\n\n\n<p>A lua j\u00e1 ia alta e o ajuntamento dos curiosos e amigos ia aumentando na porta do rancho. Mulheres se dispondo para qualquer ajuda e crian\u00e7as fazendo algazarra na rua arenosa. O sinal para servir a tiquira era o choro do vivente, que para desespero de muitos estava se alongando demais. Z\u00e9 Carna\u00faba, arrastador de camar\u00e3o \u201cdos b\u00e3o\u201d, impaciente e como uma secura danada, arriscou uma piada:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Esse mininu t\u00e1 \u00e9 de rosca \u00e9?<br>\u2014 Vai v\u00ea \u00e9 fio de jegue \u2014 completou outro gaiato.<\/p>\n\n\n\n<p>As gargalhadas sucederam-se, por\u00e9m, de forma comedida. Chico Chaga n\u00e3o reagiu. Era acostumando com essas fuleragens e logo estava mais concentrado ao lado da janela, tentando ouvir alguma coisa que pudesse sinalizar o trabalho de parto.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 as mulheres tinham permiss\u00e3o para espiar dentro do quarto, de forma que as mais curiosas sempre saiam \u00e0 rua dando not\u00edcia quase sempre com a mesma express\u00e3o: \u201cVix\u00ea o bucho de Gracinha t\u00e1 pr\u00e1 espoc\u00e1\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No quarto fora improvisada uma cama no ch\u00e3o de terra batida. A rede com mais alguns trapos servia de colch\u00e3o onde estava deitada Gracinha com as pernas abertas em forma de forquilha e com a cabe\u00e7a no colo da m\u00e3e, Dona Raimundinha. Mordia os l\u00e1bios inferiores e gemia muito. Dona Antera ajoelhada entre as coxas da mo\u00e7a, fazia massagens na barriga comprimindo-a repetidamente. As contra\u00e7\u00f5es iam aumentando cada vez mais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ai meu Deus d\u00f3i muito, ai ai ai, acho que v\u00f4 murr\u00ea! Eu v\u00f4 murr\u00ea!<br>\u2014 Morre n\u00e3o mui\u00e9, respira e bota for\u00e7a nessa coisa, quando tu tava na sacanagem com o Chico ach\u00f4 b\u00e3o num foi? Agora ag\u00fcente! Faiz for\u00e7a! Faiz for\u00e7a que t\u00e1 saindo! Si cag\u00e1 naum liga naum!<\/p>\n\n\n\n<p>Passaram-se alguns minutos, que para Chico Chaga foram uma eternidade. Era angustiante, mas o choro fino e estridente ouvia-se at\u00e9 a rua. A comemora\u00e7\u00e3o foi com muita zuada, principalmente pelos homens do lado de fora. A molecada de p\u00e9s descal\u00e7os que molestava com pedras e paus dois c\u00e3es engatados na esquina, com outros tantos ao redor, voltou fazendo a maior algazarra, muitos sem entender o motivo daquela farra.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse choro tinha gosto de tiquira.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 P\u00e9go a tiquira Chico? \u2014 era Pedro Gua\u00edba com as m\u00e3os j\u00e1 tr\u00eamulas de tanto esperar pela \u201cmardita\u201d.<br>\u2014 P\u00e9ga l\u00e1 enrriba da mesa!<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga ainda n\u00e3o tinha relaxado e ficou escorado na porta da frente esperando not\u00edcias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Vix\u00ea nossa Sinhora, que arruma\u00e7\u00e3o \u00e9 essa?<\/p>\n\n\n\n<p>Chico reconheceu a voz de D. Raimundinha, a sogra. Foi tomado por um impulso que quase o fez adentrar ao quarto.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 O qui \u00e9 qui foi D. Raimundinha?<br>\u2014 Nada n\u00e3o Chico! Se assussegue homi!<\/p>\n\n\n\n<p>A sogra dissimuladamente come\u00e7ou a falar com a filha enquanto D. Antera dava o primeiro banho do rec\u00e9m nascido. Ao sair na pequena ante sala do rancho Chico perguntou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 o que D. Antera?<br>\u2014 Mininu homi! Mais um pr\u00e1 mulest\u00e1 as menina de fam\u00eda!<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 assim conseguiu se acalmar e voltar ao meio da turma que continuava fazendo farra a pretexto de comemora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Chico, cuma \u00e9 qui \u00e9! Acabou a tiquira! \u2014 gritou Nonatinho balan\u00e7ando a garrafa vazia no ar.<br>\u2014 V\u00e1 l\u00e1 na quitanda de seu Man\u00e9 Cacinba e pega mais duas garrafas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tinha tomado nem um gole ainda por conta da ansiedade e agora ia \u00e0 forra. E certamente duas garrafas eram coisa s\u00f3 pr\u00e1 come\u00e7o, por\u00e9m, n\u00e3o se preocupava muito visto que nessas ocasi\u00f5es nunca falta algu\u00e9m pr\u00e1 dividir despesas dessa natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Brejeira, capenga de um p\u00e9 por conta de uma picada de cobra mal benzida e j\u00e1 melado de tiquira, apareceu com uns foguetes \u201ctr\u00eas tiros\u201d que guardava em casa desde a \u00faltima visita de uns pol\u00edticos em campanha. Conseguiu surrupiar alguns e danou a solt\u00e1-los na frente da casa.<\/p>\n\n\n\n<p>D. Antera saiu pr\u00e1 fora como uma fera. Soltava fogo pelas ventas e foi logo descarregando:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Quem \u00e9 fio de uma \u00e9gua que t\u00e1 espocando fuguete a\u00ed? Num t\u00e3o vendo que tem mininu novo drumindo? Ceis enfiam essas p&#8230; no c\u00fa e param de fazer zuada. O mininu j\u00e1 nasceu, oceis j\u00e1 tumaram o \u201cmijo e t\u00e1 b\u00e3o peg\u00e1 o rumo de casa!&nbsp;\u2014 a&nbsp;austeridade de D. Antera impressionava. Logo era muito respeitada na regi\u00e3o e o melhor mesmo era atender a parteira. Sabe-se l\u00e1 quando um deles iria precisar de seus pr\u00e9stimos novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A farra da&nbsp;Rodada&nbsp;de tiquira foi dada por encerrada naquela noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou no alpendre da porta at\u00e9 todos dispersarem-se. Encarou Chico Chaga com olhar suspeito e o intimou:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Agora tu p\u00f3de entr\u00e1 e v\u00ea teu fio!<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga n\u00e3o escutou.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Tu num vai v\u00ea teu mininu n\u00e3o homi? \u2014 esbravejou Dona Antera reiterando a ordem.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga, absorto que estava ainda pensando na observa\u00e7\u00e3o que fizera Dona Raimundinha, a sogra, logo que nascera o menino, sobressaltou-se.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 V\u00f4 sim sinh\u00f4ra! \u2014 saiu ligeiro acompanhado Dona Antera.<\/p>\n\n\n\n<p>Entrou no quarto e deparou-se com Gracinha, agora deitada na rede armada com o filho no colo envolto a panos limpos e mamando com entusiasmo. Dona Raimundinha passava a m\u00e3o de leve nos cabelos da filha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Oi\u00e1 aqui Chico o nosso fio! \u2014 Gracinha descobriu levemente a cabe\u00e7a do rec\u00e9m nato para o marido olhar.<br>\u2014 \u00c9 macho num \u00e9?<br>\u2014 E num e?! Espia isso, benza Deus! Isso que \u00e9 um macho fogoso!<br>\u2014 Num t\u00e1 muito esbranqui\u00e7ado naum Dona a Antera?<br>\u2014 T\u00e1 naum homi. Quando nasci \u00e9 assim mesmo!<br>\u2014 A senhora agarante?<br>\u2014 Agaranto sim sinh\u00f4! \u2014 respondeu Dona Antera sem se preocupar como seria resolvia, futuramente, essa quest\u00e3o de paternidade duvidosa.<br>\u2014 \u00c9 a luz do candieiro que clareia muito \u2014 adiantou-se Dona Raimundinha tentando desfazer a d\u00favida.<br>\u2014 Posso peg\u00e1?<br>\u2014 Ainda n\u00e3o! T\u00e1 com o espinha\u00e7o muito molinho, s\u00f3 quando tiv\u00e9 mais espertinho! \u2014 precavida Dona Antera estabelecia suas regras.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga ficou escorado na rede um pouco e logo saiu pr\u00e1 fora. Olhou para o c\u00e9u estrelado e suspirou fundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O sil\u00eancio reinava novamente no povoado. Dava para ouvir as ondas da mar\u00e9 alta batendo no nos pilares do trapiche e esborrifando nos cascos dos barcos. O vento salgava o ar misturando o cheiro agrad\u00e1vel do mar que refletia a luz prateada da lua j\u00e1 caindo no horizonte. Paragens remotas assim inebriam nossa alma e conseguem aflorar a sensibilidade e nos remetem \u00e0 realidade do Pa\u00eds, desconhecida pela maioria dos brasileiros. A vida serena e acomodada que passa lentamente sem nenhuma objetividade, privada com naturalidade das necessidades b\u00e1sicas do ser humano, nos leva a refletir sobre uma poss\u00edvel invers\u00e3o de valores. Ser\u00e3o eles os miser\u00e1veis exclu\u00eddos e desassistidos pelas autoridades constitu\u00eddas, que trabalham duro, sob sol, chuva e vento, sem conforto, escolas, sa\u00fade, vivendo alheios ao resto do mundo ou n\u00f3s que pagamos altos tributos para desfrutar das benesses da sociedade moderna, induzidos que somos pelo consumismo? N\u00e3o se comprometem com carn\u00eas, cart\u00f5es, financiamentos, impostos, empregos ou qualquer outro compromisso que possa tirar-lhes aquela alegria que \u00e9 marca registrada estampada nas faces curtidas pelo tempo e pelo sol. Sempre que convivo com essas comunidades de pescadores, pondero sobre isso.<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte, ainda escuro, Chico Chaga \u00e9 acordado aos gritos pelo companheiro de pesca Mundico. Tinha dormido mal a noite na pequena sala. Dona Raimundinha e Dona Antera armaram suas redes no quarto com Gracinha. Parteira que se preze leva a pr\u00f3pria rede e acompanha a parida por v\u00e1rios dias, cuidando incondicionalmente de tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Qui qui \u00e9 Mundico? \u2014 respondeu Chico Chaga sonolento.<br>\u2014 Simbora homi que a mar\u00e9 num ispera pescad\u00f4 n\u00e3o!<br>\u2014 Mais assim nu cag\u00e1 dos pinto?<br>\u2014 Hum hum tu t\u00e1 leso \u00e9, j\u00e1 vai \u00e9 amanhice! Ou tu vai fic\u00e1 babando mininu novo?<\/p>\n\n\n\n<p>Meio grogue pulou da rede vestiu a bermuda e uma camisa velha e rasgada e seguiram at\u00e9 o porto.<br>J\u00e1 com a ca\u00e7oeira na \u00e1gua e o dia claro comentou com o companheiro:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00c9 Mundico, agora tenho que trabai\u00e1 o drobo. A famia aument\u00f4, vai aument\u00e1 tum\u00e9m a dispesa!<br>\u2014 Tu nem sabe da dispesa Chico. Mininu novo num \u00e9 como n\u00f3is naum que passa s\u00f3 no xib\u00e9u! Si bem que naum demora muito logo logo p\u00f3de tum\u00e1 papinha de farinha e caldo de peixe.<\/p>\n\n\n\n<p>Mundico sabia do que estava falando. Tinha quatro filhos e a esposa j\u00e1 estava prenha outra vez.<br>Houve alguns minutos de sil\u00eancio e enquanto Chico Chaga secava o fundo da canoa com uma caneca feita de Pet cortada ao meio, Mundico perguntou indiscreto:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Ritinha de Z\u00e9 Pre\u00e1 disse que o mininu \u00e9 branquinho feito uma gal\u00e7a!<br>\u2014 Num sei disso n\u00e3o! Dona Antera disse que quando nasce \u00e9 assim mesmo a despois vai tumando cor. \u2014<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga tentava disfar\u00e7ar a observa\u00e7\u00e3o, contudo, era vis\u00edvel a sua contrariedade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 T\u00f4 aqui matutando Mundico, fio de&nbsp;Camurim&nbsp;parece&nbsp;Camurim, fio jegue parece jegue, fio de bode parece bode, fio de mero \u00e9 igualzinho o mero, que diabo que esse mininu \u00e9 t\u00e3o diferente os bicho tudo qui quando nasce s\u00e3o paricido com os pai?<br>\u2014 Dona Antera t\u00e1 certa homi! Vai crescendo vai pegando cor \u2014 completou Mundico percebendo a bobagem que fizera. \u2014 Tu t\u00e1 \u00e9 pensando besteira. Tu j\u00e1 viste fi\u00f3te de urubu?<br>\u2014 Naum!<br>\u2014 E de guar\u00e1?<br>\u2014 Tumem naum!<br>Ent\u00e3o si\u00f4&#8230; nenhum \u00e9 parecido com o pai. Deixa de hist\u00f3ria. Isso vai s\u00ea um pescad\u00f4 dos b\u00e3o! Tali quali o pai!<\/p>\n\n\n\n<p>A amizade de longos anos desfrutada com rec\u00edproca lealdade e confian\u00e7a fazia Chico Chaga, do alto de sua ingenuidade, confiar nas palavras do amigo o que o deixava mais calmo e relaxado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 \u00d3ia Chico, l\u00e1 naquela siribeira! \u2014 gritou Mundico apontando o dedo para o manguezal.<br>\u2014 O qui qui \u00e9?<br>\u2014 Tu naum t\u00e1 vendo naum? O fi\u00f3te de guar\u00e1, branquinho branquinho?<br>\u2014 \u00d3xente! Num \u00e9 que \u00e9!<br>\u2014 Num ti falei! \u00d3ia l\u00e1 dois&#8230; ainda nem avua!<br>\u2014 Mundico tu acabou de tir\u00e1 um peso da minha consci\u00eancia, num \u00e9 que \u00e9 verdade! Marrap\u00e1, eles nasci bem alvinho num \u00e9?<br>\u2014 \u00c9 Chico! Si bem que tem uns qui naum muda a cor naum! Deve ser coisa de Deus! Chico meu cumpanheiro, v\u00f4 ti diz\u00ea uma coisa, \u00e1s veis a gente tem que aceit\u00e1 essas encomenda de Deus! \u00c9 gra\u00e7as a ele que n\u00f3is v\u00e9ve nesse mundo \u2014 Mundico filosofava parecendo saber de alguma coisa que fugia \u00e0 compreens\u00e3o de Chico Chaga, entretanto, parecia satisfeito com a miss\u00e3o de ludibriar o amigo e principalmente com a condescend\u00eancia do amigo.<br>\u2014 Tu t\u00e1 certo Mundico, o que Deus d\u00e1 pr\u00e1 n\u00f3is \u00e9 sagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>A mar\u00e9 fora boa e o pescado farto. Venderam um bocado no porto e levaram um c\u00f4fo cheio de gurib\u00fas, uritingas, bandeirados e corvinas para casa, cada qual com sua partilha.<br>Chico Chaga chegou \u00e0 casa alegre e fazendo muita zuada. Sentia-se muito melhor desde que sa\u00edra para a pescaria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Dona Antera, Dona Raimundinha, \u00f3ia os p\u00eaxe mode faz\u00ea o cuzido! E a senhora Dona Antera, tire logo uma muchiada mode mand\u00e1 l\u00e1 pr\u00e1 sua casa. Pode tir\u00e1 quanto quiz\u00e9 da marca que quiz\u00e9!<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00f4fo de peixe fresco exalava cheiro forte que impregnava o interior do humilde rancho, como deve ser mesmo o rancho de um pescador. Fora mesmo um dia de sorte!<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 E Dona Antera, cuma \u00e9 que t\u00e1 meu mininu?<br>\u2014 T\u00e1 muito bem! Int\u00e9 parece um anjinho.<br>\u2014 V\u00f4 l\u00e1 v\u00ea meu bichinho!<br>\u2014 Ent\u00e3o lave essas m\u00e3o primeiro \u2014 ordenou a parteira cuidadosa.<\/p>\n\n\n\n<p>Chico Chaga pegou uma cuia e tirando \u00e1gua da cacimba rasa, banhou-se rapidamente. Entrou no quarto numa carreira desenfreada e foi logo falando baixinho:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2014 Cad\u00ea meu fi\u00f3te de guar\u00e1? Cad\u00ea meu fi\u00f3te de guar\u00e1? Papai j\u00e1 cheg\u00f4!<br>\u2014 T\u00e1 com a mulesta Chico, que diabo \u00e9 isso de fi\u00f3te de guar\u00e1?<br>\u2014 \u00c9 o meu fi\u00f3tinho de guar\u00e1 Gracinha. \u2014 encostou os l\u00e1bios na testa do menino e o beijou carinhosamente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dona Antera fazia as \u00faltimas recomenda\u00e7\u00f5es enquanto lavava as m\u00e3os em uma cuia grande \u00e0 luz fraca do candieiro esfuma\u00e7ante. Parteira de muitos atributos e famosa em toda a regi\u00e3o, n\u00e3o se lembrava mais de quantas crian\u00e7as teriam vindo ao mundo com o seu auxilio. 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