{"id":1004,"date":"2008-05-14T12:35:27","date_gmt":"2008-05-14T15:35:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/?p=1004"},"modified":"2021-10-01T10:21:49","modified_gmt":"2021-10-01T13:21:49","slug":"cronica-de-um-pedestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.pescanordeste.com.br\/revista\/cronica-de-um-pedestre\/","title":{"rendered":"Cr\u00f4nica de um pedestre"},"content":{"rendered":"\n<p>Bati meu carro h\u00e1 alguns dias atr\u00e1s e s\u00f3 ontem levei \u00e0 oficina. Fiz um esquema de carona casa para o trabalho e vice versa. Mas a de hoje de manh\u00e3 furou. Resolvi vir ao escrit\u00f3rio de \u00f4nibus. Fui para a parada mais pr\u00f3xima j\u00e1 com o sol castigando. Depois de uns 10 minutos encosta o coletivo lotado. Cheguei a pensar que n\u00e3o ia dar para entrar, era muita gente, fiquei indeciso, mas logo imaginei que o pr\u00f3ximo coletivo poderia demorar mais de uma hora. Boto o p\u00e9 no primeiro degrau com acara esfregando as costas de um outro passageiro e sinto um empurr\u00e3o medonho me jogando pr\u00e1 dentro. Era uma mocr\u00e9ia com uma bolsa velha de buriti a tira colo. S\u00f3 sossegou quando cheguei \u00e0 catraca congestionada por uma gracinha que resolveu procurar um passe perdido num enorme sacola. O motorista acho que, percebendo a lentid\u00e3o, deu uma arrancada daquelas, passei de uma vez pela roleta levando junto a empata fogo. Esbarrei num neg\u00e3o que de maldade pisou no meu p\u00e9 enquanto voltava para pagar a cobradeira. Dei o dinheiro e fiquei esperando o troco.<br>\u2013 N\u00e3o tenho troco pr\u00e1 dois real.<br>\u2013 Quanto \u00e9 a passagem?<br>\u2013 R$1,75. Se quiz\u00e9 o troco espera a\u00ed.<\/p>\n\n\n\n<p>T\u00e1 bom. Fiquei ali segurando um daqueles monte de ferro pregado no teto. \u00c0 medida que ia entrando gente, a coisa ia espremendo e eu cada vez mais para o fundo do corredor. Meus 0,25 cents j\u00e1 eram. Fui parar entre duas pipirinhas bonitinhas embutidas em cal\u00e7as jeans num esfrega esfrega de pernas danado. Uma de cabelos loiros com \u00f3culos escuros que cobria quase todo o rosto e a outra pretinha de cabelos molhados escorridos pelo cangote e com as costas da blusa toda molhada que estava de meia bunda ro\u00e7ando minha coxa. Pelo menos havia me dando bem ali entre as duas. O odor era uma mistura qu\u00edmica terr\u00edvel. Fundiam-se perfumes e desodorantes de todo o tipo. Alguns vencidos e nauseantes. Acho que tinha at\u00e9 banho vencido.<\/p>\n\n\n\n<p>A coisa melhorou um pouco ap\u00f3s uma velhinha pedir para segurar minha pasta de trabalho. Relutei um pouco, mas a sua apar\u00eancia era acima de qualquer suspeita. Pude segurar aquelas barras de ferro com as duas m\u00e3os e aproveitei para chegar bem o bra\u00e7o junto ao da loira.<\/p>\n\n\n\n<p>Pensei, agora essa merda n\u00e3o vai mais parar. N\u00e3o tem como entrar mais ningu\u00e9m. Fiquei nas pontas dos p\u00e9s e dei uma olha l\u00e1 fundo. Parecia arenque no c\u00f4fo. Certamente n\u00e3o haveria como entrar uma crian\u00e7a sequer. Mas qual o qu\u00ea! Quando menos esperava, outra freada violenta. Despreguei-me das pipirinhas e fui parar encima de um sujeito de camiseta \u201cDeus \u00e9 Fiel\u201d com o sovaco \u00e0 mostra quase se esfregando na minha cara com aquele cheiro horroroso. O calor estava insuport\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 p\u2026! Esse cara \u00e9 maluco!? Protestei indignado com a falta de respeito do motorista.<br>\u2013 Isso \u00e9 \u201cfreada do arruma\u201d resmungou o sujeito do suvaco.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve ter sido mesmo, pois acabou ficando mais folgado, embora tenha perdido a posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel entre a loira e a moreninha. Tentei dissimuladamente voltar junto delas, mas era imposs\u00edvel. Minha pasta ficou l\u00e1 na frente no colo da velhinha. Tinha que ficar de olho. Vai que essa maluca des\u00e7a antes que eu.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 tava puto da vida, as \u201cfreadas de arruma\u201d se sucediam e eu cada vez mais l\u00e1 pro fundo, arrastando o cara do suvaco comigo. De vez enquanto usava os cotovelos pr\u00e1 ver se ele se distanciava um pouco. Consegui me ajeitar com a barriga escorada naquela al\u00e7a de ferro de uma poltrona e de olho na velhinha. Nisso sinto uma press\u00e3o violenta no espinha\u00e7o e sou exprimindo com a barriga da p\u2026 do apoio de ferro que quase boto os fato pr\u00e1 fora. Respirando com dificuldade olhei pr\u00e1 tr\u00e1s e vi o saliente com cara de quem estava de ressaca com uma enorme mochila pirata dessas de marca presa no t\u00f3rax Joguei o corpo por cima do passageiro sentado \u00e0 minha frente para facilitar o tr\u00e2nsito do cara me espremendo ainda mais. O qualira ao inv\u00e9s de passar ficou ali parado. Olhei bem pr\u00e1 ele:<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Tu vais passar ou vai ficar a\u00ed emba\u00e7ando?<br>\u2013 Num tem pr\u00e1 onde ir n\u00e3o!<br>\u2013 Se vira cara! Tu n\u00e3o t\u00e1 vendo que estou todo exprimido aqui?<br>\u2013 \u00d4 tio, num qu\u00e9 and\u00e1 de \u00f4nibus compra um carro!<\/p>\n\n\n\n<p>Ah sacana! Quase mandei o cara pr\u00e1 aquelelugar. Tinha um pircing de argola no nariz e tive que me conter para n\u00e3o arranc\u00e1-lo lembrando de um filme, acho, que do Steven Seagal. Mas ali era o pior lugar para arrumar uma confus\u00e3o. Minha sorte que logo veio outro \u201cfreio de arruma\u201d. Acabei me livrando do babaca.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui parar na porta dupla de sa\u00edda preocupado com minha pasta que ainda estava em poder da velhinha. Uma morena gostosa com um decote generoso estava sentada na poltrona do corredor lendo um panfleto desses de promo\u00e7\u00e3o de super mercados. Olhando de cima o cen\u00e1rio era agrad\u00e1vel e amenizava o estresse, embora disfar\u00e7asse de vez enquando. afinal n\u00e3o queria ser acusao em p\u00fablico de voyerismo. Segurei firme no apoio da poltrona no caso de outra freada. Dali ningu\u00e9m ia me tirar. N\u00e3o era como estar entre aquelas duas pipiras que agora estavam distantes, por\u00e9m, melhor do que exprimido entre os machos fedorentos. Queria que a velhinha olhasse pr\u00e1 mim. Poderia pegar minha pasta e simulando um pouco de dificuldade e sofrimento quem sabe a morena da poltrona n\u00e3o pedisse pra segurar? Seria o m\u00e1ximo. Mas nada, a velhinha estava l\u00e1 frente sentadinha quase cochilando. O espa\u00e7o folgou um pouco e consegui encostar um dos joelhos na coxa da morena. Agora ia nessa at\u00e9 a minha parada final. Quando o coletivo parava parecia bode embarcado. Desciam 5 subiam 6 e era aquela agonia. Sentia o suor descendo pelos costados e pela testa e tomando cuidado pr\u00e1 neguinho n\u00e3o ficar ro\u00e7ando a minha bunda. Numa das paradas j\u00e1 pr\u00f3ximo ao escrit\u00f3rio, subiu um cego pela porta de tr\u00e1s, apoiando ao bra\u00e7o de um menino. N\u00e3o acreditei! \u2013D\u00ea uma ajuda pro ceguinho, pelo amor de Deus! D\u00ea uma ajuda pro ceguinho!<\/p>\n\n\n\n<p>E foi o ceguinho levando o povo no peito tendo a crian\u00e7a como guia. N\u00e3o sei se na pr\u00e1tica, essa situa\u00e7\u00e3o funciona para o deficiente coletar algumas moedas. Ali ningu\u00e9m tem nenhuma condi\u00e7\u00e3o de enfiar a m\u00e3o nos bolsos ou bolsas. Em alguns momentos mal se respira.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei pela janela e percebi que j\u00e1 estava mais pr\u00f3ximo da minha parada. Agora tinha que tra\u00e7ar uma estrat\u00e9gia para voltar \u00e0 velhinha l\u00e1 da frente para recuperar a pasta. Mas para isso era obrigado me afastar da morena e daquele decote. Quando parecia que o corredor estava mais folgado, encosta uma figura do meu lado esquerdo, barbudo mal cheiroso, de bermuda, chinelo de dedo uma camisa desbotada do Corinthians com a inscri\u00e7\u00e3o no peito Kalunga! PQP onde esse cara arrumou isso? S\u00f3 me faltava essa! Tentou segurar na al\u00e7a da poltrona onde eu tamb\u00e9m estava seguro, mas dei um arruma nele com o cotovelo. O cara tinha o bra\u00e7o todo peludo e suava qual tal tampa de papeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ah chegou \u00e0 parada! \u00c9 de frente a um Shopping e percebi que o movimento da grande maioria era para desembarcar ali. Fiquei aliviado vendo a velhota vindo em minha dire\u00e7\u00e3o com a pasta. A morena do decote levantou-se tamb\u00e9m e como eu estava esperando a velhinha, teve que passar entre eu e a poltrona. Aproveitei para dar um esfrega. Peguei a pasta agradeci e fui em dire\u00e7\u00e3o aquele monte de gente querendo descer de uma s\u00f3 vez. Ainda tinha um gaiato que n\u00e3o ia desembarcar, atrapalhando a sa\u00edda. O corintiano come\u00e7ou a gritar no meu cangote: arr\u00f3cha, arr\u00f3cha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2013 Calma a\u00ed cara!<br>\u2013 Sai, sai que t\u00f4 avexado! Fiquei puto mas retruquei:<br>\u2013 T\u00e1 avexado? N\u00e3o quer andar de \u00f4nibus compre um carro! He he me vinguei!<\/p>\n\n\n\n<p>Meu carro sai da oficina s\u00f3 na quinta feira! T\u00f4 fudido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bati meu carro h\u00e1 alguns dias atr\u00e1s e s\u00f3 ontem levei \u00e0 oficina. Fiz um esquema de carona casa para o trabalho e vice versa. Mas a de hoje de manh\u00e3 furou. Resolvi vir ao escrit\u00f3rio de \u00f4nibus. Fui para a parada mais pr\u00f3xima j\u00e1 com o sol castigando. 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